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Tudo o Que Não Vivemos

CAPÍTULO 2

A fotografia

Gabriel continuava na janela.

A distância entre os dois era pequena o bastante para que Elisa reconhecesse a rigidez de seus ombros, mas grande demais para que pudesse compreender o que havia mudado em seu rosto no instante em que vira a fotografia.

O vento empurrou uma mecha de cabelo contra a face dela. Elisa não a afastou.

Seus dedos estavam presos às bordas da imagem antiga, apertando o papel com mais força do que deveria. O canto inferior começava a se curvar, e ainda assim ela parecia incapaz de afrouxar a mão.

Olhou outra vez para o verso.

"Algumas histórias não terminam quando as pessoas vão embora."

Abaixo, a data.

Oito anos antes.

A noite que durante muito tempo dividira sua vida em duas partes: antes de Gabriel partir e depois que ele partiu.

Durante os primeiros meses, Elisa havia reconstruído aquela noite tantas vezes que cada minuto adquirira importância. Gabriel prometera encontrá-la às dez. Às dez e quinze, ela estava irritada. Às dez e quarenta, começara a mandar mensagens. Às onze, já não conseguia esconder a preocupação. Perto da meia-noite, ligara tantas vezes que deixara de contar.

Na manhã seguinte, descobrira que ele havia ido embora.

Não havia uma mensagem final escondida entre as outras.

Nenhuma carta.

Nenhum pedido para esperar.

Apenas ausência.

Com o passar dos anos, os horários perderam nitidez, mas a sensação daquela manhã nunca desapareceu completamente. Era como acordar e descobrir que alguém retirara uma parede da casa durante a noite: tudo ainda parecia estar no lugar, mas o espaço já não era seguro.

Elisa ergueu os olhos.

A janela estava vazia.

Gabriel desaparecera dali.

Por um segundo, um reflexo absurdo do passado atravessou seu corpo. A mesma sensação de procurar alguém e descobrir que ele já não estava.

Então ouviu o portão abrir.

Gabriel saiu da casa e atravessou o jardim.

Não corria, mas havia pressa na maneira como caminhava. Algumas pessoas próximas à varanda olharam para ele, talvez estranhando a súbita urgência em pleno velório. Gabriel não pareceu perceber.

Quando chegou à calçada, parou a poucos passos de Elisa.

— Onde você conseguiu isso?

Não houve cumprimento.

O olhar dele estava fixo na fotografia.

Elisa sentiu a irritação substituir parte do desconforto.

— Estava no meu carro.

Gabriel olhou rapidamente para o veículo, depois para a rua. Seus olhos percorreram as casas, os carros estacionados e as pessoas mais distantes, como se procurasse alguém.

— Quem colocou?

— Se eu soubesse, provavelmente não estaria aqui tentando entender.

Ele voltou a olhar para a foto.

— Você viu alguém perto do carro?

— Não.

— Quando chegou, tinha alguma coisa no para-brisa?

— Não.

Elisa lembrava perfeitamente. O para-brisa estava limpo quando estacionara. Portanto, alguém colocara a fotografia ali enquanto ela estava dentro da casa.

Alguém que provavelmente a vira chegar.

A conclusão deixou uma sensação fria em sua nuca.

Gabriel estendeu a mão.

— Posso ver?

Elisa puxou a fotografia para mais perto do corpo.

— Não.

A mão dele permaneceu no ar por um instante antes de baixar.

— Elisa.

— Não faça isso.

— Isso o quê?

— Falar meu nome como se ainda tivesse algum direito de me pedir coisas.

A frase saiu antes que ela pudesse suavizá-la.

Gabriel não reagiu imediatamente, mas Elisa viu a tensão aparecer em seu maxilar.

Durante anos, imaginara que, se tivesse a oportunidade de feri-lo, sentiria algum tipo de justiça.

Não sentiu.

— Eu não estou tentando...

— Então não tente.

Gabriel passou a mão pelos cabelos.

O gesto era o mesmo de oito anos atrás, mas agora parecia menos impaciente e mais cansado.

— A letra — ele disse. — Preciso ver.

Elisa hesitou.

Depois virou a fotografia, mantendo-a entre os próprios dedos.

Gabriel se aproximou.

O espaço entre eles diminuiu.

Elisa percebeu o cheiro discreto de sabonete misturado ao de madeira e café que vinha da casa. Por uma fração de segundo, a proximidade trouxe uma lembrança física demais: Gabriel inclinando-se sobre seu ombro para ler alguma coisa quando eram jovens.

Ela deu meio passo para trás.

Ele leu a mensagem.

E seu rosto mudou.

Foi uma transformação pequena, quase invisível para alguém que não o conhecesse.

Mas Elisa conhecera Gabriel quando ele ainda não sabia esconder o que sentia.

Os olhos dele ficaram imóveis sobre a frase.

— Você reconhece — ela disse.

— Não.

Rápido demais.

Elisa sentiu a velha frustração subir pelo peito.

— Mentira.

Gabriel ergueu os olhos.

— Eu disse que não reconheço.

— E eu disse que é mentira.

— Você continua decidindo o que eu penso?

Ela soltou uma risada sem humor.

— Interessante ouvir isso de você.

O silêncio seguinte teve peso.

Gabriel desviou os olhos primeiro.

Elisa sabia que a frase encontrara alguma coisa nele. Não sabia o quê.

Na rua, um carro passou lentamente. Folhas secas correram pela calçada, arrastadas pelo vento. Dentro da casa, alguém fechou uma janela.

Tudo parecia excessivamente normal para uma conversa que fazia oito anos parecerem menos distantes a cada segundo.

— Quem sabia dessa fotografia? — Gabriel perguntou.

— Você está perguntando para mim?

— Estou.

— Era sua câmera.

— Eu sei.

— Então deveria saber melhor do que eu.

Gabriel voltou a olhar para a imagem.

— Não fui eu que tirei.

Elisa franziu a testa.

— Como assim?

— A câmera era minha. A foto, não.

A informação abriu uma fresta em uma lembrança que Elisa não visitava havia muito tempo.

O lago.

O sol baixo.

Ela sentada sobre o capô.

Gabriel ao seu lado.

Uma voz feminina reclamando que os dois precisavam parar de se mexer.

Uma risada.

Elisa tentou segurar a memória, mas ela se dissolveu.

— Quem tirou?

Gabriel demorou alguns segundos.

— Clara.

O nome encaixou a lembrança.

Clara Nogueira, sua melhor amiga, segurando a câmera com as duas mãos e ameaçando jogá-la no lago se Gabriel continuasse explicando como deveria apertar o botão.

Elisa quase conseguiu ouvir a risada da amiga.

— Clara — repetiu.

— Foi ela.

— Ela não escreveria isso.

— Eu sei.

Clara podia ser inconveniente, curiosa e incapaz de guardar uma opinião para si. Mas não faria uma brincadeira daquele tipo. Não com Gabriel. Não com aquela noite.

Elisa examinou novamente a fotografia.

Havia pequenas marcas nas bordas. Uma mancha quase imperceptível perto do canto. Sinais de que o papel passara anos sendo guardado em algum lugar.

— Onde essa foto ficou?

Gabriel demorou.

— Aqui.

— Nesta casa?

Ele assentiu.

— Até quando?

A pergunta pareceu simples.

A reação dele não foi.

Gabriel passou a língua pelos lábios antes de responder.

— Até a noite em que fui embora.

Elisa sentiu um arrepio.

— E depois?

— Sumiu.

— Como uma fotografia simplesmente some?

— Eu procurei. Não encontrei.

Ela ficou imóvel.

— Você procurou essa fotografia naquela noite?

Gabriel percebeu tarde demais o que acabara de admitir.

Elisa deu um passo em sua direção.

— Por quê?

— Elisa...

— Por que você estava procurando uma fotografia nossa justamente na noite em que desapareceu?

Ele olhou para a casa.

A evasão irritou Elisa mais do que qualquer resposta.

— Eu preciso voltar.

Ela soltou uma risada incrédula.

— Claro.

— Minha mãe está lá dentro.

— E oito anos atrás? Qual era a desculpa?

A pergunta o atingiu.

Gabriel fechou os olhos por um instante.

Quando voltou a abri-los, o cansaço em seu rosto parecia maior.

— Você realmente quer fazer isso agora?

Elisa sentiu as unhas pressionarem a palma da mão.

— Eu quis fazer isso durante oito anos.

Por alguns segundos, Gabriel apenas a observou.

— Eu não posso responder aqui.

— Você nunca pode responder.

— Porque não é simples.

A frase despertou algo que Elisa havia passado anos tentando domesticar.

— Não. É muito simples.

Ela ergueu a fotografia entre os dois.

— Você prometeu me encontrar. Não apareceu. Eu liguei, mandei mensagens, esperei. Na manhã seguinte, você tinha ido embora. Eu vim até esta casa e sua mãe chorou enquanto dizia que você tinha partido.

A cor desapareceu lentamente do rosto de Gabriel.

— Você veio aqui?

Elisa franziu a testa.

— O quê?

— Na manhã seguinte. Você veio aqui?

— É claro que vim.

Ele pareceu esquecer a fotografia.

— Minha mãe falou com você?

— Sim.

— O que ela disse?

Elisa ficou desconcertada pela urgência da pergunta.

— Que você tinha ido embora.

— Só isso?

— Que diferença faz?

— Elisa, tenta lembrar. O que exatamente ela disse?

Ela tentou.

A memória daquela manhã era dolorosa e fragmentada.

Cecília abrindo a porta com os olhos inchados.

O corredor atrás dela.

Uma mala que talvez estivesse perto da escada — ou talvez Elisa tivesse acrescentado aquele detalhe depois de tantos anos.

"Ele foi embora, querida."

Havia mais?

Elisa se lembrava de ter perguntado para onde.

Cecília chorara.

Talvez tivesse dito que não sabia.

Ou que Gabriel precisava de tempo.

As lembranças antigas nem sempre eram registros. Às vezes eram histórias recontadas tantas vezes que já não se sabia qual parte realmente acontecera.

— Eu não lembro — Elisa admitiu.

Gabriel olhou para a casa como se alguma coisa ali tivesse acabado de se tornar perigosa.

— Por que isso importa?

Antes que ele respondesse, a porta se abriu.

Cecília surgiu na varanda.

— Gabriel?

Ele se virou.

— Já vou, mãe.

Cecília viu Elisa.

Depois viu a fotografia.

A mudança em seu rosto foi imediata.

A mão que segurava o batente apertou a madeira.

Elisa observou a cor desaparecer de suas feições.

Não era a reação de alguém que simplesmente reconhecera uma foto antiga.

Era medo.

Ou culpa.

Talvez ambos.

— Onde você encontrou isso? — Cecília perguntou.

— Estava no meu carro.

Cecília olhou para Gabriel.

Não para Elisa.

Para o filho.

A troca de olhares durou poucos segundos, mas continha algo que Elisa não compreendia.

— Mãe — Gabriel disse.

Cecília balançou a cabeça.

— Não hoje.

Elisa sentiu a paciência desaparecer.

— O quê?

A mulher desceu um degrau.

— Elisa, querida, não é o momento.

A frase tinha intenção de acalmá-la.

Produziu o contrário.

— Parece que todo mundo sabe qual é o momento certo para eu descobrir coisas, menos eu.

— Não é isso.

— Então o que é?

Cecília abriu a boca.

Gabriel interveio.

— Ela tem razão. Não hoje.

Elisa olhou para ele.

Por um segundo, viu não o homem de vinte e oito anos diante dela, mas o garoto que tomara uma decisão oito anos antes e não lhe dera direito de participar.

— Você não aprendeu nada.

— Elisa...

— Oito anos depois e você ainda acha que pode decidir quando eu mereço saber a verdade.

Gabriel ficou em silêncio.

Ela abriu a porta do carro.

Queria sair dali antes que dissesse algo de que se arrependeria.

— Fique com a fotografia — ele falou.

Elisa olhou por cima da porta.

— Eu pretendia.

— Não mostre para ninguém ainda.

Uma risada curta escapou dela.

— Agora você está me dando ordens?

— Estou pedindo.

— Por quê?

Gabriel olhou para a foto.

— Porque quem colocou isso no seu carro sabia que você estaria aqui hoje.

A frase interrompeu sua raiva.

Elisa não respondeu.

— E sabia qual carro era o seu — ele continuou.

Ela olhou para o veículo.

Pela primeira vez, a fotografia deixou de parecer apenas uma mensagem sobre o passado.

Alguém estivera perto de seu carro minutos antes.

Talvez enquanto ela conversava com Gabriel dentro da casa.

Talvez enquanto ela abraçava Cecília.

— E sabia que essa data significaria alguma coisa para você — Gabriel acrescentou. — Isso não foi acaso.

Elisa tentou diminuir o desconforto.

— Talvez alguém só queira fazer uma brincadeira idiota.

— Talvez.

— Mas você não acredita nisso.

— Não.

Cecília permanecia na varanda.

Ainda pálida.

Ainda observando.

Elisa entrou no carro.

— Quando chegar em casa, me avise — Gabriel disse.

Ela quase perguntou como.

Então percebeu que talvez ele ainda tivesse seu número.

Ou tivesse conseguido com alguém.

Nenhuma possibilidade a agradou.

— Henrique sabe onde eu estou.

A resposta saiu deliberadamente.

Gabriel absorveu a informação sem demonstrar muito.

— Certo.

Elisa fechou a porta.

Dessa vez, ao sair, não olhou para a janela.

***

O caminho de volta deveria levar quinze minutos.

Elisa demorou quase trinta.

Dirigiu sem pressa, permitindo que carros a ultrapassassem e parando por tempo demais em semáforos que já haviam ficado verdes. A fotografia estava sobre o banco do passageiro, virada para baixo.

Mesmo assim, sua presença ocupava o carro inteiro.

Em um sinal, Elisa olhou para ela.

A imagem de duas pessoas que ainda acreditavam no futuro.

Era quase ofensivo.

Quando chegou ao apartamento, o cheiro de alho e manteiga a recebeu antes mesmo de fechar a porta.

Henrique estava na cozinha.

Tinha tirado o paletó e dobrado as mangas da camisa até os antebraços. Uma panela fumegava no fogão. O celular apoiado perto da pia tocava música em volume baixo.

A normalidade daquela cena provocou em Elisa uma emoção inesperada.

Alívio.

E, logo depois, culpa.

Henrique se virou.

— Oi. Fiz massa.

Ela deixou a bolsa sobre uma cadeira.

— Você cozinha quando está preocupado.

— Eu também cozinho quando estou com fome.

— Mas coloca alho demais quando está preocupado.

Henrique olhou para a panela.

— Talvez eu esteja extremamente preocupado.

Elisa sorriu.

Dessa vez, não precisou fingir.

A cozinha tinha luz quente. Havia duas taças sobre a bancada e uma garrafa de vinho aberta. O ambiente era pequeno, organizado e familiar.

Era sua vida real.

Elisa precisou lembrar disso.

Henrique se aproximou.

— Como foi?

A pergunta parecia simples.

Mas a resposta tinha o rosto de Gabriel.

Tinha uma fotografia escondida dentro de sua bolsa.

Tinha Cecília empalidecendo ao vê-la.

— Estranho.

Henrique tocou de leve seu braço.

— Ele estava lá?

Não precisou dizer o nome.

Elisa percebeu.

— Estava.

Henrique assentiu.

Não havia acusação em sua expressão.

Aquilo tornava tudo mais difícil.

— E?

Elisa pensou em dizer que não significara nada.

Seria uma frase confortável.

Talvez Henrique acreditasse.

Talvez ela própria conseguisse acreditar durante algumas horas.

Mas não seria verdade.

Ver Gabriel significara alguma coisa.

Não necessariamente amor.

Não necessariamente desejo.

Talvez apenas a violência de encontrar, em carne e osso, alguém que durante anos existira apenas em uma parte fechada da memória.

— Foi difícil.

Henrique a observou.

— Quer falar sobre isso?

Elisa pensou na fotografia.

— Não ainda.

Ele não pressionou.

— Tudo bem.

Henrique beijou sua testa e voltou ao fogão.

Elisa permaneceu alguns segundos observando-o.

Aquele homem nunca desaparecera.

Nunca a obrigara a adivinhar se seria amado no dia seguinte.

Nunca fizera promessas grandiosas.

Em vez disso, aparecia.

Em aniversários, domingos comuns, consultas médicas, reuniões de família e noites em que Elisa chegava tarde demais do escritório.

Era estranho que uma fotografia de oito anos atrás pudesse entrar naquela cozinha e fazer o passado parecer tão presente.

Durante o jantar, Elisa tentou permanecer na conversa.

Henrique contou sobre um cliente particularmente difícil. Ela falou de uma reforma que estava atrasada. Discutiram novamente os convites, e Elisa finalmente admitiu que talvez o marfim realmente fosse diferente do branco.

Riram.

Por alguns minutos, tudo pareceu normal.

Mas a fotografia continuava dentro da bolsa.

Quando Henrique foi tomar banho, Elisa voltou à cozinha.

O apartamento ficou silencioso.

Ela tirou a foto e colocou-a sobre a bancada.

Sob a luz mais forte, os detalhes pareciam diferentes.

A imagem estava envelhecida.

A mensagem, não.

Elisa inclinou o papel.

A tinta no verso parecia recente demais.

Não havia desbotamento.

Nenhuma marca de tempo sobre as letras.

A fotografia podia ter oito anos.

A frase não.

Seu telefone vibrou.

Número desconhecido.

Elisa ficou olhando para a tela.

Uma mensagem.

"Chegou em casa?"

Ela soube imediatamente.

Não respondeu.

Segundos depois:

"É o Gabriel."

Elisa quase revirou os olhos.

Digitou:

"Eu imaginei."

Os três pontos apareceram.

Desapareceram.

Voltaram.

"Você ainda está com a foto?"

Elisa olhou para a imagem sobre a bancada.

"Sim."

"Não joga fora."

"Eu não tenho mais 19 anos. Você não precisa me dizer o que fazer."

A resposta demorou.

"Eu sei."

Depois apareceu outra mensagem.

"Mas tem uma coisa que você precisa verificar."

O coração de Elisa acelerou.

"O quê?"

"Olha a fotografia contra uma luz forte."

Ela franziu a testa.

Por alguns segundos, pensou em ignorar.

Não queria seguir instruções de Gabriel como se os oito anos entre eles não existissem.

A curiosidade venceu.

Elisa levantou a fotografia diante da luminária sobre a bancada.

No começo, não aconteceu nada.

Ela mudou o ângulo.

A luz atravessou parcialmente o papel.

Então viu.

Havia algo escrito na própria fotografia.

Não no verso.

Na frente.

Na região escura do lago, escondido entre sombras que a olho nu pareciam apenas parte da imagem.

Elisa aproximou o rosto.

Três palavras.

PERGUNTE À MARINA.

Ela leu novamente.

Seu corpo ficou frio.

Marina.

Sua irmã.

A pessoa que a recolhera em pedaços depois que Gabriel desapareceu.

A pessoa que durante oito anos se recusara a falar dele sem demonstrar desprezo.

Elisa pegou o telefone.

Antes que escrevesse qualquer coisa, Gabriel enviou:

"Eu nunca tinha visto isso."

Ela respondeu:

"Você sabia que tinha alguma coisa escondida?"

"Não."

"Então como sabia para olhar contra a luz?"

Os três pontos surgiram.

Desapareceram.

Voltaram.

A demora começou a parecer uma resposta.

Finalmente:

"Porque oito anos atrás meu pai me mandou fazer a mesma coisa com outra fotografia."

Elisa sentiu os pelos dos braços se arrepiarem.

"Que fotografia?"

Gabriel demorou novamente.

"Uma foto sua."

O ruído do chuveiro parou no corredor.

Elisa permaneceu olhando para a tela.

Uma fotografia dela.

Augusto.

Aquela noite.

Havia partes da história que pareciam estar conectadas havia oito anos sem que ela sequer soubesse que existiam.

Henrique abriu a porta do corredor.

— Amor?

Elisa virou o telefone para baixo.

O gesto foi automático.

E foi justamente isso que a incomodou.

— Oi.

— Está tudo bem?

Ela olhou para Henrique.

Depois para a fotografia.

Queria responder de forma diferente.

Queria dizer que não sabia.

Que alguma coisa estranha havia acontecido.

Que Gabriel estava mandando mensagens.

Que a própria irmã aparentemente estava ligada à noite que destruíra uma parte de sua juventude.

Mas Elisa ainda não tinha uma história para contar.

Tinha apenas peças.

— Está.

A palavra saiu antes que pudesse impedir.

Henrique assentiu.

— Vem dormir.

— Já vou.

Ele voltou para o quarto.

Elisa esperou até ouvir a porta fechar.

Então pegou o telefone.

Abriu a conversa com Marina.

Ficou olhando para o nome da irmã.

A confiança entre elas nunca fora algo que Elisa questionasse. Marina era quatro anos mais velha e, desde crianças, agia como se tivesse recebido a missão oficial de protegê-la de qualquer coisa que pudesse machucá-la.

Quando Gabriel desapareceu, Marina fora quem dormira ao lado dela durante duas noites porque Elisa não conseguia parar de chorar.

Fora Marina quem bloqueou o número dele no telefone de Elisa semanas depois, quando ela continuava verificando se apareceria alguma mensagem.

Fora Marina quem repetira inúmeras vezes que um homem capaz de ir embora daquela maneira não merecia mais um minuto de sofrimento.

Elisa digitou:

"Preciso te perguntar uma coisa."

A resposta veio rapidamente.

"Agora?"

Elisa posicionou a fotografia diante da luz e fotografou as três palavras escondidas.

Enviou.

Por quase um minuto, não houve resposta.

Então apareceu:

"Marina está digitando..."

Desapareceu.

Voltou.

Desapareceu novamente.

Finalmente:

"De onde você tirou isso?"

O coração de Elisa bateu mais forte.

Não respondeu.

"Você sabia?"

Marina demorou.

"Sabia o quê?"

Elisa fechou os olhos.

Conhecia a irmã.

Conhecia seus desvios de assunto.

Conhecia a maneira como respondia perguntas com outras perguntas quando estava desconfortável.

"Não faça isso comigo."

Visualizada.

Nenhuma resposta.

"Marina."

Visualizada.

Nada.

O telefone tocou.

Marina.

Elisa atendeu imediatamente.

— O que aconteceu naquela noite?

Silêncio.

Não o silêncio de alguém tentando compreender uma pergunta.

O silêncio de alguém escolhendo uma resposta.

— Marina?

Quando a irmã falou, a voz estava baixa.

— Elisa, escuta. Não fala com Gabriel sobre isso.

A cozinha pareceu esfriar.

— Por quê?

— Porque você não sabe o que aconteceu.

— Então me conta.

— Eu não posso.

Elisa apertou o telefone.

— Você passou oito anos dizendo que ele me abandonou.

— Porque ele foi embora.

— Não foi isso que eu perguntei.

Marina respirou do outro lado.

Elisa sentiu o medo crescer lentamente, substituindo a raiva.

— Você sabia por que ele foi embora?

Silêncio.

Às vezes, a ausência de uma resposta dizia mais do que qualquer confissão.

Elisa apoiou a mão livre na bancada.

— Meu Deus.

— Não é o que você está pensando.

— Eu nem sei o que pensar.

Ela percebeu que sua voz subira e olhou para o corredor.

Baixou o tom.

— Você sabia.

— Eu sabia uma parte.

— Há oito anos?

— Sim.

A resposta mudou alguma coisa.

Não apenas na história de Gabriel.

Na história das duas irmãs.

Elisa olhou para a fotografia sobre a bancada.

Marina estivera ao lado dela durante todo aquele sofrimento.

Sabia de alguma coisa.

E escolhera o silêncio.

— E nunca me contou?

— Eu estava tentando proteger você.

Elisa fechou os olhos.

A frase doeu de um modo inesperado.

Proteção.

Era uma palavra bonita para decisões tomadas sem consentimento.

— De quê?

Marina não respondeu.

— De quê, Marina?

A respiração da irmã chegou pelo telefone.

Quando falou, sua voz quase não passou de um sussurro.

— Do motivo verdadeiro pelo qual Gabriel foi embora.

A ligação caiu.

Elisa afastou o telefone do ouvido.

— Marina?

Nada.

Ligou novamente.

Caixa postal.

Tentou outra vez.

O mesmo.

Ficou olhando para a tela, sem saber se estava mais irritada, assustada ou traída.

Uma notificação apareceu.

Nova mensagem.

Gabriel.

"Ela contou?"

Elisa leu duas vezes.

Os dedos começaram a tremer.

"Você sabia que ela sabia."

A resposta demorou.

"Sim."

Elisa fechou os olhos.

Durante oito anos, vivera com uma versão simples da história.

Dolorosa, mas simples.

Gabriel tinha ido embora porque quis.

Ela não fora suficiente para fazê-lo ficar.

Com o tempo, aprendera a transformar essa versão em algo suportável. Uma cicatriz com bordas definidas.

Agora as bordas tinham desaparecido.

Não era apenas Gabriel.

Marina sabia.

Cecília sabia alguma coisa.

Augusto deixara fotografias com mensagens escondidas.

E alguém, naquele mesmo dia, colocara uma peça daquele passado sobre seu carro.

Elisa olhou para o corredor que levava ao quarto onde Henrique a esperava.

Depois para a fotografia.

Pela primeira vez em oito anos, ela não sentiu apenas raiva de Gabriel por ter partido.

Sentiu medo do motivo.

Porque talvez o abandono que passara tanto tempo tentando superar não fosse a pior parte daquela história.

Talvez fosse apenas a parte que haviam permitido que ela conhecesse.

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