CAPÍTULO 1
O homem que voltou
Elisa Monteiro sempre acreditara que existiam pessoas que desapareciam de uma vida aos poucos.
Primeiro deixavam de telefonar com a mesma frequência. Depois, as mensagens ficavam mais curtas, os encontros eram adiados e os assuntos que antes pareciam inesgotáveis começavam a morrer entre silêncios constrangidos. Um dia, sem que houvesse uma data exata para marcar no calendário, aquela pessoa que conhecia seus medos, suas manias e até a maneira como você gostava do café se transformava em alguém distante.
Era um tipo de desaparecimento lento. Quase gentil.
Gabriel Ferraz não tivera essa delicadeza.
Gabriel desaparecera de uma vez.
Sem aviso. Sem despedida. Sem uma última conversa que Elisa pudesse revisitar durante os anos seguintes procurando sinais que não havia percebido.
Oito anos depois, ainda a irritava descobrir que a memória era capaz de guardar detalhes inúteis daquela época. Ela não se lembrava do que havia almoçado no dia anterior, mas conseguia recordar a camiseta que Gabriel usara na última tarde em que estiveram juntos. Lembrava do calor daquele verão, da marca circular que um copo gelado deixara sobre a mesa e da forma como ele passara os dedos pelos cabelos enquanto falava de uma viagem que fariam algum dia.
O cérebro tinha um senso de humor cruel.
— Você está me ouvindo?
A voz de Henrique trouxe Elisa de volta.
Ela piscou, afastando da cabeça uma lembrança que não tinha sido convidada, e encontrou o noivo sentado do outro lado da pequena mesa da cafeteria. Ele segurava duas amostras de papel entre os dedos e observava Elisa com aquela expressão paciente que ela conhecia bem demais.
— Estou.
— Então qual?
Elisa baixou os olhos para os cartões.
— Qual o quê?
Henrique riu.
— Exatamente.
A cafeteria ocupava uma esquina antiga no centro da cidade. Tinha janelas grandes, paredes de tijolos aparentes e mesas pequenas demais para a quantidade de coisas que os clientes insistiam em colocar sobre elas. Naquela manhã de sábado, o lugar estava cheio. O cheiro de café recém-passado misturava-se ao de pão quente e manteiga, enquanto o som baixo de conversas era interrompido de tempos em tempos pelo barulho da máquina de espresso.
Do lado de fora, a praça seguia seu ritmo habitual. Crianças perseguiam pombos perto da fonte, um vendedor organizava flores em baldes coloridos e casais atravessavam a calçada aproveitando o céu claro de início de outono. Os sinos da igreja haviam acabado de anunciar dez horas.
Sobre a mesa de Elisa e Henrique, no entanto, parecia existir uma pequena central de planejamento de guerra.
Havia uma agenda aberta, três canetas, uma pasta com orçamentos, fotografias de arranjos, amostras de tecido, cartões de fornecedores e uma quantidade desproporcional de papéis em diferentes tonalidades de branco.
Henrique colocou dois deles lado a lado.
— Marfim ou branco?
Elisa inclinou a cabeça.
— São iguais.
— Não são.
— Henrique, são dois pedaços de papel branco.
— Um é marfim.
Ela aproximou o rosto e estreitou os olhos, fingindo uma análise profissional.
— Impressionante. Depois de quatro anos juntos, finalmente descobri seu talento secreto.
— Reconhecer cores?
— Inventá-las.
O sorriso dele apareceu sem esforço.
Henrique tinha uma tranquilidade que Elisa aprendera a apreciar antes mesmo de perceber que estava apaixonada por ele. Não era o tipo de homem que transformava qualquer contrariedade em tempestade. Quando ela chegava irritada depois de um dia ruim no escritório, ele não exigia que explicasse imediatamente. Quando Elisa precisava de silêncio, Henrique não interpretava aquilo como rejeição. Quando esquecia as chaves, o celular ou onde havia deixado a paciência, ele normalmente encontrava pelo menos duas das três coisas.
Havia conforto naquela previsibilidade.
Durante muito tempo, Elisa desconfiara de tudo que parecia fácil demais. Depois aprendera que talvez o amor não precisasse doer para ser verdadeiro.
Henrique empurrou o cartão marfim em sua direção.
— Esse.
— Por quê?
— Porque você escolheu o outro.
— Eu nem escolhi.
— Sua cara escolheu.
Ela riu e levou a xícara aos lábios.
O anel de noivado capturou a luz da janela.
Era discreto, exatamente como Elisa pedira quando, meses antes, Henrique fizera uma pergunta aparentemente casual sobre joias. Ainda assim, às vezes ela se surpreendia olhando para a pedra como se pertencesse à mão de outra pessoa.
Casamento.
A palavra já não parecia tão estranha quanto no início, mas ainda carregava um peso silencioso. Não de medo. Pelo menos era nisso que Elisa acreditava.
Faltavam cinco meses.
Cinco meses até uma cerimônia que já tinha local, fotógrafo, buffet e uma lista de convidados que sua mãe modificava sem autorização sempre que encontrava um parente distante no supermercado.
Cinco meses até uma vida que, em teoria, já estava desenhada.
Elisa gostava de coisas desenhadas.
Talvez por isso tivesse escolhido arquitetura.
Passava os dias transformando espaços vazios em linhas, medidas e possibilidades. Antes de existir uma parede, ela sabia onde estaria. Antes de alguém entrar por uma porta, Elisa havia decidido sua altura, largura e direção. Existia uma lógica reconfortante na ideia de que tudo precisava de estrutura.
Paredes precisavam de fundações.
Tetos precisavam de apoio.
Até o vidro tinha limites calculáveis.
Pessoas, infelizmente, não vinham acompanhadas de plantas.
O celular vibrou sobre a mesa.
Elisa olhou por reflexo, esperando alguma mensagem da cerimonialista. O nome de Marina apareceu na tela.
"Você está onde?"
Ela franziu a testa.
A irmã mais velha sabia que Elisa passaria a manhã resolvendo detalhes do casamento. Ainda assim, Marina tinha uma habilidade especial para fazer perguntas cuja resposta já conhecia.
Elisa digitou:
"Café com Henrique. Por quê?"
A resposta surgiu quase imediatamente.
"Pode me ligar?"
A mão de Elisa ficou parada sobre o aparelho.
Marina raramente pedia autorização para telefonar. Normalmente ligava, falava durante três minutos sem respirar e só depois perguntava se Elisa estava ocupada.
Henrique percebeu a mudança em seu rosto.
— Aconteceu alguma coisa?
— Marina.
— Isso não responde.
— Quando minha irmã manda "pode me ligar?" em vez de simplesmente ligar, normalmente significa que ela quer preparar o terreno antes de me irritar.
— Ou está tentando ser educada.
Elisa ergueu uma sobrancelha.
— Você conheceu minha irmã?
Henrique sorriu e voltou aos convites.
Elisa pegou o telefone e se levantou.
— Já volto.
Ao abrir a porta da cafeteria, foi recebida por uma corrente de ar frio. A temperatura havia caído desde que chegara. Ela fechou o casaco e caminhou alguns passos até ficar longe do movimento da entrada.
Ligou.
Marina atendeu no segundo toque.
— Oi.
Havia alguma coisa errada na voz dela.
Elisa soube antes mesmo de ouvir qualquer explicação.
— Você está estranha.
— Bom dia para você também.
— Marina.
Do outro lado, houve uma pausa.
Não passou de alguns segundos, mas foi longa o suficiente para que o corpo de Elisa se preparasse para uma notícia ruim antes de sua mente saber qual seria.
— O que aconteceu?
— O Augusto morreu.
A frase chegou sem encontrar imediatamente um lugar onde se encaixar.
Augusto.
Era um nome comum. Elisa conhecia outros homens chamados Augusto. Por uma fração de segundo, seu cérebro tentou escolher qualquer um deles.
Então Marina completou:
— Augusto Ferraz.
O sobrenome fez o restante.
Elisa deixou de sentir o vento.
Ao redor dela, a praça continuou exatamente como antes. Um ônibus parou perto da esquina. Uma menina chorou porque deixara cair um sorvete. Duas mulheres conversavam diante da floricultura, inclinadas uma para a outra como se compartilhassem um segredo. Um garçom abriu a porta da cafeteria e o cheiro quente de café escapou para a calçada.
Nada havia mudado.
E, ainda assim, Elisa sentiu a impressão desconfortável de que uma porta que permanecera fechada durante oito anos acabara de se abrir.
— Quando?
— Ontem à noite.
Ela desviou os olhos para a igreja.
Augusto Ferraz.
Durante anos, precisara ensinar a si mesma a separar os membros daquela família do homem que um dia amara.
Cecília era Cecília, não a mãe de Gabriel.
Augusto era Augusto, não o pai de Gabriel.
A casa antiga da Rua das Acácias era apenas uma casa.
O lago era apenas um lago.
E Gabriel...
Gabriel era alguém que não fazia mais parte de sua vida.
A lógica funcionava na maior parte do tempo.
— Elisa?
— Estou aqui.
— Eu pensei que você deveria saber antes de encontrar alguém comentando.
— Sim.
A resposta saiu baixa.
Ela sabia qual seria a próxima informação. Talvez por isso desejasse que Marina encerrasse a ligação antes de pronunciá-la.
Não aconteceu.
— O velório é hoje à tarde.
Elisa fechou os olhos.
Não perguntaria.
Não tinha motivo para perguntar.
Não queria saber.
— Ele vem — Marina disse.
O coração de Elisa bateu com uma força súbita e irritante.
Duas palavras.
Oito anos comprimidos em duas palavras.
Ele vem.
— Eu não perguntei.
— Eu sei.
— Então por que está me dizendo?
— Porque prefiro que você saiba agora.
Elisa abriu os olhos.
Através da janela da cafeteria, conseguia ver Henrique inclinado sobre a agenda. Ele anotava alguma coisa enquanto comparava dois papéis. Provavelmente uma tarefa relacionada ao casamento. Talvez "convites marfim", porque aparentemente aquela era uma decisão que adultos funcionais precisavam tomar.
A vida dela estava do outro lado daquele vidro.
Concreta.
Organizada.
Presente.
A outra pertencia a um tempo em que ela ainda acreditava que amar alguém era suficiente para impedir que essa pessoa fosse embora.
— O pai dele morreu, Marina. É óbvio que ele viria.
— Você não precisa ir ao velório.
Elisa girou o pequeno anel da avó que usava na mão direita. Fazia aquilo sempre que estava nervosa. O movimento era tão automático que só percebeu quando o metal já completara duas voltas ao redor do dedo.
— Eu gostava do Augusto.
— Eu sei.
— E da Cecília.
— Eu sei.
— Então eu vou.
Marina soltou o ar lentamente.
— Você não deve nada a ninguém daquela família.
Elisa continuou olhando para Henrique.
— Não vou por Gabriel.
O silêncio da irmã carregou uma resposta que ela teve a gentileza de não dizer.
— Não diga.
— Eu não disse nada.
— Mas pensou.
— Infelizmente você ainda não conseguiu proibir isso.
Apesar de tudo, Elisa quase sorriu.
— Tenho que voltar.
— Se quiser, eu vou com você.
— Não precisa.
— Elisa.
— Estou bem.
A frase saiu depressa.
Depressa demais.
As duas perceberam.
Marina não discutiu.
— Certo. Me liga se mudar de ideia.
Quando a ligação terminou, Elisa permaneceu parada na calçada.
Oito anos.
Ela tinha dezenove quando vira Gabriel pela última vez.
Durante muito tempo, imaginara o reencontro.
Aos vinte, fantasiava que pisaria no pé dele ou lhe daria um tapa antes que pudesse dizer qualquer coisa.
Aos vinte e um, queria apenas perguntar por quê.
Aos vinte e dois, decidiu que nunca perguntaria.
Aos vinte e três, imaginava passar por ele na rua como se fossem desconhecidos.
Aos vinte e quatro, conheceu Henrique.
Depois disso, parou de imaginar.
Ou aprendeu a interromper o pensamento antes que ele chegasse longe demais.
Elisa respirou fundo e voltou para a cafeteria.
Henrique levantou os olhos assim que ela se sentou.
— Tudo bem?
Ela colocou o telefone ao lado da xícara.
— O pai de uma pessoa que eu conhecia morreu.
A frase era verdadeira.
Só não continha tudo.
Henrique fechou a agenda.
— Alguém próximo?
Por um instante, Elisa voltou a ter dezessete anos.
Cecília colocava uma segunda fatia de bolo em seu prato enquanto fingia não ouvir Augusto reclamar que ela e Gabriel tinham deixado as bicicletas atravessadas na garagem. Havia música vindo do quarto de cima, cheiro de carne assando no quintal e a certeza adolescente de que algumas coisas existiriam para sempre.
Ela piscou.
— Já foi.
Henrique estendeu a mão por cima da mesa.
Elisa encaixou os dedos nos dele.
A mão de Henrique era quente.
Presente.
— Quer ir ao velório?
Ela assentiu.
— Hoje à tarde.
— Eu vou com você.
A resposta imediata a surpreendeu.
— Não precisa.
— Eu sei.
Ele apertou levemente seus dedos.
— Mas posso.
Durante alguns segundos, Elisa considerou aceitar.
Entrar naquela casa com Henrique ao lado talvez tornasse tudo mais simples. Ele seria uma lembrança física de quem ela era agora. Uma espécie de prova, completamente desnecessária, de que sobrevivera.
A ideia a fez sentir vergonha.
Henrique não era um escudo contra Gabriel.
Muito menos uma mensagem a ser exibida.
— Acho melhor eu ir sozinha.
Henrique estudou seu rosto por um instante, mas não pressionou.
— Tem certeza?
— Tenho.
Ele assentiu.
E a conversa voltou lentamente aos convites, embora Elisa já não conseguisse distinguir marfim de branco nem se importasse com isso.
***
Às quatro e vinte da tarde, Elisa estacionou duas ruas antes da casa dos Ferraz.
Havia vagas mais perto.
Ela passou por duas delas.
Depois por uma terceira.
Somente quando percebeu que estava prestes a completar outra volta no quarteirão admitiu que talvez não estivesse apenas procurando um bom lugar para estacionar.
Desligou o motor.
O silêncio dentro do carro pareceu maior do que deveria.
No banco do passageiro havia um pequeno buquê de lírios brancos envolvido em papel pardo. Elisa o comprara porque Cecília sempre gostara de flores claras. Lembrar daquele detalhe a incomodou.
Era estranho descobrir quantas informações sobre aquela família continuavam armazenadas dentro dela.
Elisa abaixou o espelho do para-sol.
O rosto refletido parecia controlado.
Prendera os cabelos num coque baixo, embora alguns fios já tivessem escapado perto das têmporas. Usava um vestido preto simples sob um casaco escuro e maquiagem discreta. Nenhuma escolha havia sido feita pensando em Gabriel.
Ela repetiu isso mentalmente porque não queria investigar por que passara dez minutos a mais diante do armário.
Pegou as flores e saiu.
A Rua das Acácias tinha mudado menos do que Elisa esperava.
Algumas fachadas estavam reformadas. Uma casa que antes era amarela agora era cinza. A árvore onde Gabriel havia pendurado uma corda para tentar construir um balanço improvisado estava muito maior.
Quando adolescente, Elisa achava aquela rua comprida.
Naquele dia, bastaram poucos minutos para chegar ao fim.
A casa dos Ferraz continuava ali.
Dois andares, paredes claras, telhado escuro e uma varanda larga na frente. Quando tinha dezesseis anos, Elisa sabia qual degrau rangia, qual janela emperrava no inverno e onde Cecília escondia uma chave reserva.
Agora havia carros ocupando os dois lados da rua e pessoas entrando e saindo pelo portão.
Elisa parou diante dele.
Seu corpo simplesmente se recusou a dar o próximo passo.
Ela podia voltar.
Ninguém esperava sua presença.
Cecília entenderia.
Augusto não poderia se importar.
E Gabriel...
Elisa apertou as flores.
— Elisa?
A voz veio da varanda.
Ela ergueu os olhos.
Dona Cecília estava parada perto da porta.
Oito anos haviam alterado detalhes que Elisa só percebeu porque lembrava muito bem do rosto anterior. Havia mais fios brancos nos cabelos escuros, linhas finas ao redor dos olhos e uma fragilidade nova na maneira como segurava o próprio corpo.
Mas continuava sendo Cecília.
A mulher levou uma das mãos à boca.
Elisa não teve tempo de dizer nada.
Cecília desceu os degraus e atravessou o jardim.
— Você veio.
Aquelas duas palavras destruíram qualquer frase que Elisa preparara durante o caminho.
Cecília a abraçou.
O perfume era o mesmo.
Leve, floral, familiar demais.
Por um instante, Elisa ficou rígida. Depois seus braços se fecharam ao redor daquela mulher e alguma coisa dentro dela cedeu.
Não chorou.
Mas sentiu os olhos arderem.
Algumas pessoas podiam sair de uma vida e ainda permanecer ligadas a versões antigas de nós mesmos.
— Sinto muito — Elisa murmurou.
Cecília a apertou mais uma vez antes de se afastar.
— Obrigada por vir.
Os olhos da mulher estavam vermelhos.
Elisa entregou os lírios.
— São para você.
Cecília olhou as flores e sorriu com tristeza.
— Você lembrou.
Elisa não perguntou do quê.
As duas sabiam.
Cecília segurou a mão dela.
— Entre.
A casa estava cheia.
Ainda assim, a primeira sensação de Elisa foi de silêncio.
Não um silêncio real, porque havia conversas baixas, passos, xícaras sendo colocadas sobre pires e cumprimentos sussurrados. Era o silêncio particular dos lugares onde alguém morreu, como se todas as pessoas instintivamente reduzissem o volume para não perturbar uma ausência.
Elisa atravessou a sala devagar.
Tudo parecia menor.
O corredor que na adolescência parecia longo agora podia ser atravessado em poucos passos. A escada era mais estreita do que lembrava. Até o teto parecia mais baixo.
Mas certos objetos permaneciam exatamente onde sempre estiveram.
O relógio antigo perto da porta.
O aparador de madeira sob a janela.
Uma pequena rachadura no azulejo junto à lareira.
Sobre o piano havia fotografias da família.
Elisa viu uma imagem de Gabriel ainda criança antes de conseguir desviar o olhar.
Não queria procurar outras.
Não queria descobrir quantos anos da vida dele estavam expostos naquela sala.
Cumprimentou antigos vizinhos e parentes que reconhecia vagamente. Uma senhora apertou suas mãos e disse que fazia muito tempo. Um homem perguntou se ela ainda trabalhava com arquitetura. Outra pessoa comentou que ouvira falar de seu casamento.
Elisa respondeu educadamente.
Em algum ponto, começou a se perguntar onde Gabriel estava.
Imediatamente ficou irritada consigo mesma.
Não tinha vindo para vê-lo.
Caminhou até uma mesa onde haviam organizado fotografias de Augusto em diferentes fases da vida.
Em uma delas, ele segurava um peixe enorme diante do lago. O sorriso orgulhoso era tão exagerado que Elisa conseguiu ouvir sua voz contando a história.
Augusto jurava que o peixe era maior.
Gabriel dizia que a cada ano o animal ganhava cinco centímetros.
Elisa sorriu sem querer.
— Ele contou essa história umas cinquenta vezes.
A voz veio atrás dela.
O sorriso morreu.
Não foi preciso virar.
O corpo de Elisa reconheceu Gabriel antes que a mente tivesse tempo de se proteger.
Havia vozes que o tempo não apagava.
Ela permaneceu alguns segundos olhando para a fotografia de Augusto.
Então se virou.
E oito anos deixaram de parecer muito tempo.
Gabriel estava a poucos passos dela.
Era e não era o homem de suas lembranças.
O garoto magro de vinte anos havia desaparecido. O Gabriel diante dela tinha os ombros mais largos, barba curta e um rosto marcado por uma maturidade que Elisa não conhecia. Os cabelos castanho-escuros continuavam ligeiramente desarrumados, como se ainda recusassem qualquer tentativa de disciplina.
Usava camisa preta de mangas compridas, sem gravata. Havia cansaço em seu rosto. Não apenas o cansaço de quem passara uma noite sem dormir, mas algo mais antigo, instalado no modo como mantinha os ombros tensos.
Elisa percebeu todos esses detalhes antes de conseguir impedir.
Então olhou para os olhos dele.
E ali o tempo foi especialmente cruel.
Continuavam os mesmos.
A mesma tonalidade indefinida entre verde e castanho, dependendo da luz. O mesmo jeito de se fixarem nela como se o restante do ambiente perdesse importância.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Gabriel também parecia estar estudando as mudanças nela.
O olhar dele percorreu seu rosto, desceu por um instante e parou na mão esquerda.
No anel.
Foi menos de um segundo.
Mas Elisa viu.
E Gabriel percebeu que ela tinha visto.
Ele voltou a encará-la.
— Oi, Elisa.
Depois de oito anos, era aquilo.
Oi.
Ela imaginara discursos inteiros.
Perguntas que começavam com "por quê" e terminavam em acusações. Imaginara encontrá-lo por acaso em aeroportos, restaurantes, ruas de cidades onde nenhum dos dois morava. Em algumas versões, Gabriel pedia perdão. Em outras, ela passava por ele sem dizer uma palavra.
Nenhuma imaginação a preparara para a banalidade de um "oi".
— Gabriel.
Ouvir o nome em sua própria voz foi estranho.
Ele engoliu em seco.
— Obrigado por vir.
— Vim pela sua mãe.
A resposta saiu mais dura do que Elisa pretendia.
Gabriel apenas assentiu.
— Eu imaginei.
Aquilo a irritou.
Talvez porque ele parecesse aceitar a hostilidade sem se defender.
Talvez porque, durante anos, Elisa tivesse desejado uma oportunidade de feri-lo e agora descobrisse que não havia prazer algum nisso.
— E pelo Augusto.
— Claro.
Outra pausa.
Pessoas passavam atrás deles. Um homem tocou o ombro de Gabriel e murmurou alguma coisa. Ele respondeu rapidamente, mas seus olhos retornaram a Elisa quase no mesmo instante.
Ela sentiu uma vontade contraditória de ir embora e de permanecer ali até descobrir tudo o que os oito anos haviam feito com ele.
O segundo impulso a assustou mais.
— Sinto muito pelo seu pai.
A voz dela saiu diferente dessa vez.
Mais baixa.
Mais verdadeira.
A expressão de Gabriel perdeu parte da defesa.
— Obrigado.
— Marina me contou hoje de manhã.
— Ela ainda me odeia?
Elisa quase riu.
— Com uma dedicação admirável.
Um canto da boca dele se levantou.
Era um movimento pequeno.
Familiar.
Gabriel fazia aquilo quando tentava não sorrir completamente.
Elisa odiou o fato de ainda saber.
— Algumas coisas não mudam — ele disse.
Ela olhou diretamente para ele.
— Outras mudam.
O sorriso desapareceu.
O olhar dele desceu novamente para o anel.
Dessa vez, Elisa deixou a mão onde estava.
— Parabéns.
— Obrigada.
— Quando?
— Daqui a cinco meses.
Gabriel assentiu devagar.
Durante um instante, a expressão dele ficou vazia demais, como se tivesse fechado uma porta por dentro.
— Ele é um bom homem?
A pergunta pegou Elisa desprevenida.
Henrique surgiu em sua mente na cozinha, fazendo café. Henrique esperando do lado de fora de uma reunião quando ela trabalhara até tarde. Henrique perguntando se ela queria companhia para aquele velório sem exigir saber por quê.
— É.
— Ótimo.
Uma raiva súbita atravessou Elisa.
Ótimo.
O homem que desaparecera sem lhe dar uma explicação estava diante dela aprovando educadamente o futuro que ela construíra depois de sobreviver à ausência dele.
— Você não precisa aprovar.
— Eu sei.
— Nem perguntar.
— Também sei.
— Então por que perguntou?
Gabriel sustentou o olhar dela.
Por um segundo, alguma coisa pareceu prestes a escapar.
Uma resposta.
Um sentimento.
Talvez apenas cansaço.
— Gabriel.
A voz de Cecília veio da entrada da sala.
Ele desviou os olhos.
— Preciso...
— Claro.
Elisa se afastou.
Queria ar.
Queria distância.
Queria descobrir por que seu coração ainda estava batendo como se ela tivesse dezenove anos e acabado de vê-lo atravessar o portão para encontrá-la.
— Elisa.
Ela parou.
Não se virou imediatamente.
— Foi bom ver você.
A frase fez alguma coisa dentro dela endurecer.
Elisa olhou por cima do ombro.
— Não.
Gabriel ficou imóvel.
— Não foi.
Ela saiu antes que ele pudesse responder.
***
Elisa atravessou o portão com passos controlados.
Somente quando chegou ao carro percebeu que as mãos estavam tremendo.
Entrou e fechou a porta.
O mundo do lado de fora ficou abafado.
Ela apoiou as duas mãos no volante e respirou.
Uma vez.
Duas.
Três.
Não chorou.
Por algum motivo, isso pareceu uma vitória.
Elisa olhou para o próprio reflexo no retrovisor.
Era ridículo que um encontro de poucos minutos pudesse bagunçar tanto uma pessoa.
Ela tinha vinte e sete anos.
Uma carreira.
Uma casa.
Um noivo.
Uma vida inteira construída sem Gabriel Ferraz.
Encontrá-lo não deveria ter poder algum.
Mas o corpo nem sempre obedecia às conclusões que a mente levara anos para construir.
Seu celular vibrou dentro da bolsa.
O som fez o coração disparar.
Elisa odiou a própria reação antes mesmo de pegar o aparelho.
Era Henrique.
"Como você está?"
Ela ficou olhando para a pergunta.
Digitou:
"Estou bem."
Parou.
Apagou.
Não queria mentir.
Mas também não sabia explicar o que estava sentindo.
Escreveu:
"Indo para casa."
Enviou.
Guardou o celular e ligou o carro.
Foi quando percebeu uma pequena coisa branca presa sob o limpador do para-brisa.
Elisa franziu a testa.
Desligou o motor.
Por alguns segundos, pensou que fosse algum panfleto deixado por alguém na rua.
Saiu do carro.
O vento havia aumentado e movimentava as folhas das árvores ao longo da calçada.
Elisa puxou o papel.
Não era um anúncio.
Era uma fotografia.
Antiga.
As bordas estavam gastas e ligeiramente amareladas. Havia uma pequena dobra em um dos cantos, como se tivesse sido guardada durante anos dentro de uma caixa ou livro.
Elisa reconheceu a imagem antes mesmo de observá-la por inteiro.
Seu estômago se contraiu.
Ela tinha dezenove anos.
Gabriel, vinte.
Os dois estavam sentados sobre o capô de um carro diante do lago. O sol se punha atrás deles, transformando a água em uma superfície dourada. Elisa usava uma camiseta clara e tinha os cabelos muito mais compridos. Gabriel estava inclinado em sua direção, os joelhos tocando os dela.
Nenhum dos dois olhava para a câmera.
Estavam olhando um para o outro.
E havia naquela fotografia uma intimidade tão evidente que Elisa sentiu quase vergonha de observá-la.
A garota da imagem parecia completamente segura de seu futuro.
Elisa lembrava daquela tarde.
Não como uma sequência perfeita, mas em fragmentos.
O calor do metal do carro sob suas pernas.
Uma música tocando em algum lugar.
Gabriel roubando seus óculos de sol.
O cheiro de água e terra.
Uma discussão boba sobre qual cidade escolheriam para morar quando finalmente fossem embora dali.
Naquela época, eles falavam sobre o futuro como se fosse um lugar que já lhes pertencesse.
Elisa passou o polegar pela borda da fotografia.
Não via aquela imagem havia anos.
Talvez nunca tivesse tido uma cópia.
Então uma pergunta atravessou o choque.
Quem a colocara ali?
Ela virou a foto.
Havia uma frase escrita no verso.
A letra não era de Gabriel.
Elisa sabia disso imediatamente.
Conhecera a caligrafia dele em bilhetes, cadernos, cartões de aniversário e nas margens dos livros que ele insistia em emprestar.
Aquela letra era diferente.
"Algumas histórias não terminam quando as pessoas vão embora."
Elisa sentiu um arrepio percorrer os braços.
Abaixo da frase havia apenas uma data.
Ela não precisou fazer esforço para reconhecê-la.
Algumas datas desapareciam do calendário e continuavam existindo dentro das pessoas.
Era a data de oito anos atrás.
A noite em que Gabriel deveria encontrá-la.
A noite em que ele não apareceu.
A última noite antes de desaparecer.
Elisa permaneceu imóvel ao lado do carro.
O ruído da rua pareceu distante.
Alguém precisava ter guardado aquela fotografia durante oito anos.
Alguém precisava saber que ela estaria naquele velório.
Alguém precisava saber qual carro era o dela.
E, acima de tudo, alguém sabia exatamente o que aquela data significava.
Elisa ergueu os olhos lentamente para a casa dos Ferraz.
Uma janela do segundo andar estava aberta.
Gabriel estava ali.
Mesmo à distância, ela reconheceu sua silhueta.
Ele não parecia simplesmente observá-la.
Parecia olhar diretamente para a fotografia em suas mãos.
Elisa levantou um pouco o papel, quase num gesto involuntário.
A reação dele foi imediata.
Gabriel deu um passo em direção à janela.
E foi então que Elisa percebeu a expressão em seu rosto.
Não era curiosidade.
Não era surpresa.
Não era sequer a culpa que ela imaginara encontrar tantas vezes durante os últimos oito anos.
Era medo.
Um medo tão claro que atravessou a distância entre eles.
Elisa olhou novamente para a fotografia.
Depois para Gabriel.
E, pela primeira vez desde que ele desaparecera, uma ideia diferente entrou em sua cabeça.
Talvez a pergunta nunca tivesse sido apenas por que Gabriel foi embora.
Talvez a pergunta certa fosse:
o que aconteceu naquela noite para fazê-lo partir?