CAPÍTULO 2
Não Responda
— Elena...
A voz atravessou a casa como um sussurro que não deveria ter força suficiente para chegar até ela.
Mesmo assim, chegou.
Elena permaneceu imóvel diante do espelho, com os dedos gelados e o coração batendo tão violentamente que cada pulsação parecia empurrar o ar para fora de seus pulmões.
A voz era de sua mãe.
Não parecida.
Não semelhante.
Era dela.
Elena conhecia muito pouco da mulher que Isabel Valença havia sido. Guardava fotografias, algumas histórias contadas por parentes e lembranças tão antigas que já não sabia distinguir o que realmente recordava daquilo que imaginara depois de ouvir os outros falando.
Mas a voz...
A voz ela conhecia.
Em algum lugar profundo de sua memória, aquela voz permanecera intacta.
— Elena...
Dessa vez veio mais perto.
Do alto da escada.
Ela ergueu os olhos.
A luz do lustre continuava acesa, embora poucos minutos antes a casa inteira estivesse sem energia. O corredor do segundo andar parecia comprido demais visto dali. No final dele, a escuridão permanecia espessa, quase sólida.
E a porta que estivera trancada agora estava aberta.
Apenas alguns centímetros.
Elena sentiu a lembrança voltar.
Sua mãe ajoelhada diante dela.
As mãos segurando seu rosto infantil.
Os olhos assustados.
“Quando a noite chamar pelo seu nome... não responda.”
Ela levou a mão à boca.
O instinto dizia para correr.
Não pensar.
Não tentar compreender.
Apenas correr.
Então a voz chamou uma terceira vez.
— Elena, meu amor...
As lágrimas surgiram antes que ela pudesse impedir.
Meu amor.
Isabel a chamava assim?
Elena não sabia.
Ou sabia e havia esquecido?
A dor da dúvida quase foi suficiente para fazê-la subir.
Seu pé tocou o primeiro degrau.
O assoalho rangeu.
A casa ficou silenciosa.
Elena segurou o corrimão.
— Mãe?
A palavra quase saiu.
Quase.
Mas alguma coisa dentro dela reagiu antes.
A lembrança.
Não responda.
Elena fechou a boca.
No mesmo instante, alguma coisa mudou no andar superior.
Não houve grito.
Não houve movimento brusco.
Foi pior.
A voz começou a rir.
Baixo.
Um riso feminino, delicado no começo.
Depois distorcido.
Profundo.
Impossível.
Elena recuou.
A porta no fim do corredor abriu mais alguns centímetros sozinha.
Uma mão apareceu na fresta.
Pálida.
Os dedos compridos se fecharam ao redor da madeira.
Elena correu.
Pegou a bolsa, as chaves do carro e o celular quase ao mesmo tempo. Não se preocupou em apagar luzes ou fechar portas internas. Abriu a entrada principal e a chuva atingiu seu rosto com tanta força que por um segundo ficou sem enxergar.
Correu pela varanda.
Atrás dela, alguma coisa bateu no chão do segundo andar.
Depois outra vez.
Passos.
Rápidos.
Elena não olhou para trás.
Desceu os degraus da varanda, atravessou a lama e alcançou o carro.
As mãos tremiam tanto que deixou as chaves caírem.
— Não, não, não...
Abaixou-se desesperadamente.
Encontrou-as.
Foi quando ouviu a porta principal da casa bater.
Elena ergueu a cabeça.
A entrada estava aberta.
Uma silhueta permanecia no escuro.
Alta.
Imóvel.
Não parecia a mulher que vira no espelho.
Parecia outra coisa.
Ela entrou no carro.
Girou a chave.
Nada.
— Vamos...
Tentou novamente.
O motor engasgou.
A figura continuava na varanda.
Elena sentiu lágrimas de pânico queimarem seus olhos.
— Liga!
Na terceira tentativa, o motor respondeu.
Ela colocou o carro em marcha e acelerou.
Os pneus deslizaram na lama antes de encontrarem aderência.
Elena não diminuiu.
Só quando a casa desapareceu completamente atrás das árvores teve coragem de olhar pelo retrovisor.
Não havia ninguém na estrada.
Mas, por uma fração de segundo, jurou ver uma mulher sentada no banco traseiro.
Elena virou-se.
O banco estava vazio.
Freou.
O carro parou no meio do caminho.
Ela ficou respirando com dificuldade.
Não podia continuar daquele jeito.
Precisava chegar à cidade.
Precisava encontrar pessoas.
Luz.
Qualquer coisa que não fosse aquela casa.
Seguiu em frente.
A chuva transformara o caminho em lama e, quando finalmente alcançou o portão, Elena precisou sair para abri-lo.
Foi então que percebeu algo.
O cadeado estava no chão.
Quebrado.
Ela tinha certeza de que o deixara pendurado no portão.
Não importava.
Entrou no carro novamente e dirigiu.
***
Às quatro e cinco da manhã, o centro de Santa Aurora parecia uma cidade abandonada.
A chuva diminuíra, mas a neblina se espalhava pelas ruas. As vitrines estavam escuras, a igreja fechada e nenhuma pessoa caminhava pela praça.
Elena dirigiu devagar procurando uma pousada.
O celular recuperou sinal.
Três notificações apareceram imediatamente.
Uma mensagem do advogado.
“Não entre naquele quarto.”
Outra, enviada dez minutos depois.
“Elena, confirme que recebeu esta mensagem.”
E uma terceira.
“Se já estiver na casa, saia antes das 3h.”
Ela olhou para o horário.
3h.
O estômago afundou.
Elena estacionou diante do café que havia visto durante a chegada.
Ligou para o advogado.
Chamou.
Uma vez.
Duas.
Três.
Na quinta chamada, alguém atendeu.
— Elena?
A voz de Henrique Soares parecia acordada demais para alguém recebendo uma ligação às quatro da manhã.
— O que tem naquela casa?
Silêncio.
— Onde você está?
— Não muda de assunto.
— Você ainda está na propriedade?
— Estou no centro.
Do outro lado, ouviu um suspiro.
Alívio.
Aquilo a deixou ainda mais nervosa.
— Henrique, o que tem naquela casa?
— Não é uma conversa para telefone.
— Eu ouvi minha mãe.
O silêncio seguinte foi diferente.
Longo demais.
Elena apertou o aparelho contra o ouvido.
— Henrique?
— Vá para a Pousada Belladonna. Fica duas ruas depois da igreja.
— Você ouviu o que eu falei?
— Ouvi.
— Então diga que estou ficando louca.
Ele não respondeu.
— Diga — insistiu Elena.
— Vá para a pousada.
— Você sabia.
— Elena...
— Você sabia que tinha alguma coisa errada naquela casa.
— Sua avó me deixou instruções.
— Que instruções?
— Eu explico quando chegar aí.
— Quando?
— Pela manhã.
Elena soltou uma risada sem humor.
— Eu não vou esperar até de manhã para descobrir por que uma mulher morta há dezoito anos estava me chamando do segundo andar.
Henrique respirou fundo.
— Porque talvez não fosse sua mãe.
Elena parou.
O interior do carro pareceu ficar menor.
— O quê?
— Não volte para a casa.
A ligação terminou.
Elena ficou olhando para o telefone.
Tentou ligar novamente.
Henrique não atendeu.
— Filho da mãe.
Jogou o celular no banco do passageiro.
Então ouviu três batidas no vidro.
Elena gritou.
Virou-se.
Um homem estava parado ao lado do carro.
Alto.
Casaco preto encharcado pela chuva.
Cabelos escuros caindo sobre a testa.
Elena demorou alguns segundos para perceber que ele era real.
Baixou o vidro apenas alguns centímetros.
— Você está bem?
A voz masculina era baixa.
Elena encarou o desconhecido.
Mesmo sob a iluminação fraca do poste, era possível notar o rosto marcado, a barba curta e os olhos claros, difíceis de definir naquela escuridão.
— Estou.
Ele olhou para dentro do carro.
Depois para a estrada por onde ela chegara.
— Não parece.
— Eu disse que estou bem.
— Você veio da estrada do lago.
Não era uma pergunta.
Elena segurou o volante.
— E daí?
O homem voltou os olhos para ela.
Havia alguma coisa estranha na maneira como a observava.
Reconhecimento.
Como se já a conhecesse.
— Nada.
Ele se afastou um passo.
Elena deveria simplesmente ir embora.
Mas perguntou:
— Onde fica a Pousada Belladonna?
O homem apontou para a rua à direita.
— Segunda esquina. Prédio azul.
— Obrigada.
Ela ergueu o vidro.
Antes que pudesse arrancar, ele falou:
— Elena.
Sua mão parou sobre o câmbio.
O sangue gelou.
Ela baixou novamente o vidro.
— Como você sabe meu nome?
O homem permaneceu imóvel.
A chuva fina escorria por seu rosto.
— Faz muito tempo que ninguém da família Valença volta para aquela casa.
— Isso não responde à minha pergunta.
Ele a encarou por mais alguns segundos.
— Você se parece com sua mãe.
Elena abriu a porta.
Saiu do carro.
— Quem é você?
O homem pareceu se arrepender de ter dito aquilo.
— Volte para o carro.
— Você conheceu minha mãe?
— Elena.
— Como sabe meu nome?
— A cidade inteira vai saber que você voltou antes do café da manhã.
— Mas ainda não amanheceu.
Ele não respondeu.
Elena deu um passo na direção dele.
— Quem é você?
— Dante.
O nome provocou uma sensação estranha.
Não exatamente uma lembrança.
Mais como um eco.
Dante.
Ela já ouvira aquele nome?
— Dante o quê?
— Ferraz.
Dessa vez, algo mudou.
Uma imagem atravessou a mente de Elena.
Uma floresta.
Ela criança.
Um menino parado perto do lago.
Sangue escorrendo pela mão dele.
E alguém gritando:
“Não deixe o Ferraz chegar perto dela!”
A lembrança desapareceu tão rapidamente que Elena perdeu o equilíbrio.
Dante segurou seu braço.
O contato foi imediato.
Um choque gelado atravessou sua pele.
Elena viu água.
Muita água.
Dante afundando no lago.
Olhos abertos.
Uma mão tentando alcançá-lo.
Depois nada.
Ela puxou o braço.
— Não encosta em mim.
Dante também recuou.
Pela primeira vez, a expressão controlada dele se desfez.
— O que você viu?
Elena congelou.
— Como assim?
Ele percebeu o erro.
— Você ficou pálida.
— Você perguntou o que eu vi.
Dante não respondeu.
— Quem é você?
— Já disse.
— Não. Você me disse seu nome.
Ele olhou para o céu.
A chuva praticamente havia parado.
— Vá para a pousada.
— Por que todo mundo continua mandando eu ir para algum lugar sem me explicar nada?
— Porque você está cansada.
— Eu não estou cansada.
— Está tremendo.
Elena percebeu que era verdade.
Cruzou os braços.
— Eu vi uma mulher na estrada.
Dante ficou imóvel.
— Quando chegou?
— Sim.
— Como ela era?
A pergunta saiu rápida demais.
— Por quê?
— Elena, como ela era?
Ela hesitou.
— Vestido claro. Cabelos compridos.
Dante desviou o olhar para a rua.
— Ela falou com você?
— Não.
— Tem certeza?
— Tenho.
— E na casa?
Elena sentiu o coração acelerar.
— Como você sabe que aconteceu alguma coisa na casa?
Ele permaneceu em silêncio.
— Dante.
— Vá embora de Santa Aurora.
Ela soltou uma risada nervosa.
— Claro.
— Estou falando sério.
— Eu acabei de chegar.
— Então ainda dá tempo.
— Aquela casa é minha.
— Não.
Elena franziu a testa.
— Como é?
Dante olhou diretamente para ela.
— Aquela casa nunca pertenceu aos Valença.
— Eu tenho documentos que discordam de você.
— Papel não significa nada aqui.
— Você é sempre tão estranho com pessoas que conhece há cinco minutos?
Uma sombra de sorriso quase apareceu no rosto dele.
Quase.
— Você deveria ir para a pousada.
Dante começou a se afastar.
— Espera.
Ele parou.
— Você conheceu minha mãe?
Dante ficou de costas.
Por alguns segundos, Elena achou que ele ignoraria.
Então respondeu:
— Conheci.
— Como?
Dante virou apenas o rosto.
— Essa é uma das coisas que você não vai querer descobrir.
E foi embora.
Elena observou enquanto ele atravessava a praça e desaparecia na neblina.
Somente depois percebeu algo impossível.
Dante não tinha carro.
Nenhum guarda-chuva.
Nenhum lugar parecia aberto.
E, embora estivesse sob chuva havia vários minutos, quando segurara o braço dela...
A mão dele estava completamente seca.
***
A Pousada Belladonna ficava exatamente onde Dante indicara.
Uma construção azul-escura de dois andares, com vasos de flores pendurados na varanda e uma pequena placa iluminada sobre a porta.
Elena tocou a campainha.
Uma senhora de aproximadamente sessenta anos apareceu alguns minutos depois, usando robe e chinelos.
— Pois não?
— Desculpa pelo horário. Eu preciso de um quarto.
A mulher olhou para Elena.
E empalideceu.
— Você...
Elena quase revirou os olhos.
Aquilo estava começando a ficar irritante.
— Elena Valença.
A senhora levou a mão ao peito.
— Meu Deus.
— A senhora me conhece?
— Conheci sua mãe.
Claro.
Parecia que todos naquela cidade tinham conhecido Isabel.
— Tem um quarto?
— Sim. Claro. Entre.
A mulher se apresentou como Marta Belladonna.
Enquanto preenchia o cadastro, não parava de observar Elena.
— Você voltou para a casa?
— Voltei.
A caneta de Marta parou.
— Vai ficar lá?
— Ainda não sei.
— Não fique.
Elena levantou os olhos.
— A senhora também?
Marta fechou o livro de registros.
— Também o quê?
— Nada.
Estava cansada demais para aquilo.
Pegou a chave.
Quarto sete.
Subiu.
O quarto era pequeno, mas confortável. Cama de casal, banheiro, uma escrivaninha e uma janela voltada para a praça.
Elena trancou a porta.
Tirou a roupa molhada.
Tomou um banho quente.
Quando finalmente se deitou, já passava das cinco.
O sono não veio.
Ela continuava vendo o rosto no espelho.
A mão na porta.
Dante.
A imagem dele dentro da água.
Pegou o celular.
Pesquisou:
“Dante Ferraz Santa Aurora.”
Poucos resultados.
Uma empresa antiga.
Uma família tradicional.
Uma matéria sobre a restauração de uma capela.
Nada.
Então encontrou um arquivo digitalizado de um jornal local.
A manchete era antiga.
“TRAGÉDIA NO LAGO DE SANTA AURORA DEIXA UMA CRIANÇA MORTA.”
Elena abriu.
A qualidade da imagem era ruim.
Leu.
O acidente havia ocorrido vinte anos antes.
Dois meninos brincavam perto do lago quando um deles caiu na água.
O corpo fora encontrado horas depois.
Elena aproximou a tela.
O nome da criança morta estava borrado.
Mas o sobrenome era legível.
Ferraz.
Seu coração acelerou.
Continuou procurando.
Outra matéria.
“FAMÍLIA FERRAZ REALIZA CERIMÔNIA PRIVADA.”
A foto mostrava várias pessoas diante da igreja.
Elena ampliou.
Havia uma mulher chorando.
Um homem segurando seu ombro.
E, no canto da imagem, uma criança.
Um menino de aproximadamente nove anos.
Cabelos escuros.
Olhos claros.
Elena sentiu o estômago virar.
Era Dante.
A legenda dizia:
“Gabriel Ferraz, irmão mais velho da vítima, ao lado dos pais durante a cerimônia.”
Irmão mais velho.
Então Dante não era a criança morta.
Elena soltou o ar que nem percebera estar prendendo.
Devia ser apenas coincidência.
Fechou a matéria.
Mas alguma coisa continuou incomodando.
Voltou à busca.
Digitou “família Ferraz acidente lago Dante”.
Um resultado apareceu.
Arquivo municipal.
A página demorou a carregar.
Quando abriu, Elena sentou-se na cama.
Era uma lista de registros antigos.
Nascimentos.
Casamentos.
Óbitos.
Procurou pelo sobrenome.
FERREZ, DANTE AUGUSTO.
Nascimento: 14 de junho.
Óbito: 2 de novembro.
Vinte anos atrás.
Elena leu novamente.
Depois outra vez.
O quarto pareceu ficar frio.
Não.
Aquilo estava errado.
Talvez fosse outro Dante Ferraz.
Um parente.
O homem que encontrara tinha vinte e poucos anos, talvez perto dos trinta.
A data de nascimento não aparecia completamente na tela.
Ela tentou ampliar.
O site travou.
— Vamos...
Atualizou.
Página indisponível.
Elena largou o celular.
Era coincidência.
Precisava dormir.
Deitou-se.
Fechou os olhos.
Alguns minutos depois, ouviu uma batida.
Abriu os olhos.
Silêncio.
Outra batida.
Na janela.
Elena olhou.
O quarto ficava no segundo andar.
Não havia varanda.
Sentou-se lentamente.
Outra batida.
Toc.
Toc.
Toc.
Ela pegou o celular.
Acendeu a lanterna.
Caminhou até a janela.
A cortina estava fechada.
Segurou o tecido.
Respirou fundo.
Abriu.
Não havia ninguém.
A praça estava vazia.
A neblina começava a desaparecer com a aproximação do amanhecer.
Elena quase riu de si mesma.
Então olhou para o vidro.
Do lado de fora havia uma marca.
Uma mão molhada.
Espalmada contra a janela.
Elena recuou.
A marca começou a escorrer.
E uma voz sussurrou atrás dela:
— Você respondeu.
Elena virou-se.
O quarto estava vazio.
Quando tornou a olhar para a janela, a marca havia desaparecido.
***
Dante Ferraz permanecia do outro lado da praça.
Escondido sob a marquise de uma loja fechada.
Viu a luz do quarto sete acender.
Depois apagar.
Ele deveria ir embora.
Não deveria ter falado com ela.
Não deveria ter tocado nela.
E, acima de tudo, não deveria ter permitido que Elena o reconhecesse, mesmo que apenas por uma lembrança que ela ainda não conseguia compreender.
Passos surgiram atrás dele.
— Então é verdade.
Dante não precisou se virar.
Reconheceu a voz.
Gabriel parou ao seu lado.
— Ela voltou.
Dante continuou olhando para a janela da pousada.
— Voltou.
— Foi para a casa?
— Foi.
Gabriel praguejou.
— Aurora prometeu que isso não aconteceria.
— Aurora está morta.
— E você falou com ela.
Dante finalmente olhou para o irmão.
— Ela estava sozinha.
— Isso nunca impediu você antes.
Dante apertou o maxilar.
Gabriel percebeu.
— Ela tocou em você?
Silêncio.
— Dante.
— Sim.
O rosto de Gabriel perdeu a cor.
— E?
Dante olhou novamente para a janela.
— Ela viu o lago.
Gabriel passou a mão pelo rosto.
— Isso é ruim.
— Eu sei.
— Quanto ela lembra?
— Quase nada.
— Então mantenha assim.
Dante não respondeu.
Gabriel aproximou-se.
— Você ouviu o que eu disse?
— Ouvi.
— Se Elena lembrar daquela noite, não vai ser só a família dela que vai pagar.
Dante permaneceu imóvel.
— Eu sei.
— E se a casa já chamou por ela...
Dante finalmente o encarou.
— Chamou.
Gabriel ficou em silêncio.
A igreja começou a tocar os sinos anunciando seis da manhã.
Dante olhou para o céu clareando.
Vinte anos.
Durante vinte anos, Santa Aurora permanecera quieta.
O lago não levara ninguém.
A casa permanecera fechada.
E Elena ficara longe.
Agora, em menos de uma noite, tudo começara novamente.
Gabriel falou baixo:
— Ela não pode descobrir o que aconteceu com Isabel.
Dante observou a janela.
— Vai descobrir.
— Então faça ela ir embora.
Dante fechou os olhos por um instante.
Quando os abriu, havia algo diferente em sua expressão.
Medo.
— Não sei se ela ainda pode.
Gabriel franziu a testa.
Dante continuou olhando para a pousada.
— Ela respondeu.
— O quê?
— A voz chamou pelo nome dela.
Gabriel empalideceu.
— E ela respondeu?
Dante demorou alguns segundos.
— Não na casa.
— Então onde?
Dante olhou para a janela marcada pela umidade.
— Aqui.
No mesmo instante, em algum ponto distante além da cidade, no interior da antiga propriedade Valença, o relógio parado havia décadas voltou a funcionar.
Um ponteiro avançou.
Depois outro.
E, atrás da porta no fim do corredor, alguma coisa abriu os olhos.