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Quando a Noite Chama

CAPÍTULO 1

A Casa que Esperava

A chuva começou exatamente quando Elena Valença avistou a placa enferrujada na beira da estrada.

BEM-VINDO A SANTA AURORA

O nome surgiu entre duas árvores enormes, pintado em letras que um dia provavelmente haviam sido brancas. Agora estavam amareladas pelo tempo, manchadas pela umidade e parcialmente escondidas por trepadeiras.

Elena diminuiu a velocidade.

Por alguns segundos, ficou apenas olhando.

Santa Aurora.

Ela não pronunciava aquele nome havia anos.

Talvez porque algumas palavras tivessem a estranha capacidade de carregar lugares inteiros dentro delas. Bastava ouvi-las para que cheiros, sensações e fragmentos de lembranças retornassem.

Com Santa Aurora, porém, não aconteceu nada.

Nenhuma lembrança.

Nenhuma imagem.

Apenas um desconforto inexplicável no fundo do estômago.

Elena apertou o volante.

— Chega — murmurou para si mesma.

O limpador de para-brisa deslizou de um lado para o outro, lutando contra uma chuva que rapidamente ficava mais intensa. Ela havia dirigido por quase seis horas e estava cansada demais para permitir que a própria imaginação começasse a inventar problemas.

Afinal, aquilo era apenas uma cidade.

E aquela viagem deveria ser simples.

Chegar. Resolver a documentação da casa. Separar o que pudesse ser vendido. Encontrar alguma imobiliária interessada na propriedade. E partir.

Uma semana.

Talvez duas.

Não mais do que isso.

Esse era o plano.

Santa Aurora parecia menor do que Elena imaginava. As primeiras casas surgiram alguns quilômetros depois da placa: construções antigas, muitas com varandas estreitas e telhados inclinados. Algumas lojas ocupavam prédios de dois andares ao redor da rua principal, e postes de ferro sustentavam luminárias que davam ao centro da cidade uma aparência de outra época.

Elena observava tudo através do vidro molhado.

Uma farmácia. Uma padaria. Uma pequena livraria. Um café chamado Aurora. Uma igreja de pedra no final da praça.

Poucas pessoas caminhavam pelas calçadas por causa da chuva. Ainda assim, Elena teve uma sensação incômoda.

Algumas delas olhavam para seu carro.

Ela tentou ignorar.

Era uma cidade pequena. Um veículo desconhecido provavelmente chamava atenção.

Continuou seguindo as instruções do GPS até sair novamente da região central. As ruas asfaltadas deram lugar a uma estrada estreita cercada por árvores.

— Continue por oito quilômetros — anunciou a voz eletrônica.

Elena olhou para a tela.

— Oito?

A propriedade da avó era mais afastada do que lembrava.

Ou, melhor dizendo, mais afastada do que imaginava, porque suas lembranças daquele lugar eram praticamente inexistentes.

Ela sabia que havia nascido em Santa Aurora. Sabia que vivera ali até os sete anos. Sabia que sua mãe, Isabel, havia morrido quando ela ainda era criança. E sabia que, depois disso, seu pai a levara embora.

Esses eram os fatos.

Mas quando tentava recordar a casa, a cidade ou mesmo os últimos meses ao lado da mãe, encontrava apenas espaços vazios.

Durante anos, seu pai explicara aquilo como consequência do trauma.

Elena aceitara. Era mais fácil aceitar.

Até três semanas atrás.

Até receber uma ligação informando que Aurora Valença havia morrido.

Sua avó materna.

A mulher com quem Elena não conversava havia quase quinze anos.

A mulher que, inexplicavelmente, deixara tudo para ela.

Inclusive a casa.

A estrada ficou ainda mais estreita. As árvores dos dois lados eram tão altas que seus galhos praticamente se encontravam acima da pista, formando um túnel escuro.

Foi então que alguma coisa atravessou a estrada.

Elena pisou no freio.

O carro derrapou alguns centímetros.

— Droga!

Seu coração disparou. Ela permaneceu imóvel, olhando através do para-brisa.

Tinha visto alguém.

Tinha certeza.

Uma pessoa havia atravessado a estrada poucos metros à frente.

Elena desligou o rádio. O silêncio dentro do carro tornou a chuva ainda mais alta.

Então percebeu algo próximo às árvores.

Uma mulher.

A figura estava parada entre os troncos. Usava alguma coisa clara, talvez um vestido. Os cabelos pareciam muito longos.

E ela estava olhando diretamente para o carro.

Elena abaixou um pouco o vidro.

— Senhora?

Nenhuma resposta.

— Está tudo bem?

A mulher não se moveu.

Elena hesitou antes de tocar na maçaneta. Não. Definitivamente não. Estava sozinha em uma estrada desconhecida, no meio de uma tempestade. Sair do carro seria uma ideia absurdamente ruim.

Pegou o celular.

Sem sinal.

Claro.

Quando tornou a olhar para as árvores, a mulher havia desaparecido.

Elena ficou imóvel por alguns segundos, tentando decidir se aquilo realmente acontecera.

— Excelente começo, Elena.

Ligou o carro novamente e continuou. Dessa vez, não olhou para os lados.

Quase quinze minutos depois, a floresta terminou.

E Elena finalmente viu o lago.

Era enorme. Muito maior do que esperava. A água escura se estendia entre montanhas cobertas por árvores, desaparecendo atrás de uma camada baixa de neblina.

Mesmo com a tempestade, havia alguma coisa impressionante naquela paisagem.

E assustadora.

A estrada acompanhava parte da margem até que o GPS indicou uma curva.

Foi quando ela viu os portões.

Dois pilares de pedra sustentavam uma estrutura antiga de ferro preto. No centro, quase escondida pela ferrugem, havia a letra V.

Valença.

Elena estacionou.

O portão estava fechado.

Pegou o molho de chaves que o advogado de sua avó havia enviado e saiu do carro correndo. A chuva gelada atingiu seu rosto imediatamente.

Depois de testar quatro chaves, encontrou a correta.

O cadeado abriu.

Empurrou o portão com dificuldade. O ferro rangeu num som longo, agudo e desagradável.

Elena sentiu um arrepio percorrer seus braços.

A propriedade começava ali, mas a casa ainda não estava visível. Ela dirigiu por um caminho de pedras cercado por árvores e arbustos que claramente não recebiam cuidados havia algum tempo.

Até que, depois de uma curva, surgiu.

Elena parou o carro.

Por alguns segundos, esqueceu a chuva. Esqueceu o cansaço. Esqueceu até de respirar.

A casa era enorme.

Três andares. Pedra escura. Janelas altas. Uma varanda ocupava quase toda a fachada, sustentada por pilares. Trepadeiras cobriam parte das paredes. No lado direito havia uma torre estreita com uma janela circular próxima ao telhado.

Não parecia abandonada.

Mas também não parecia exatamente habitada.

Parecia adormecida.

Elena sentiu uma pressão estranha no peito.

Alguma coisa naquela casa lhe era familiar.

Não como uma lembrança.

Era diferente.

Como reconhecer uma música sem conseguir recordar onde a ouvira.

Ela desligou o carro.

O motor parou.

Mesmo com a chuva, o silêncio pareceu pesado.

Então uma das cortinas do segundo andar se moveu.

Elena congelou.

Esperou.

Nada.

— Vento.

Claro.

Provavelmente alguma janela estava aberta.

Pegou a bolsa e saiu.

A porta principal era pesada, de madeira escura, entalhada com desenhos de folhas e pequenas flores. Elena passou os dedos sobre uma das formas.

Um flash atravessou sua mente.

Uma mão pequena tocando aquele mesmo desenho.

Uma risada.

Uma mulher chamando seu nome.

E acabou.

Elena afastou a mão.

Seu coração batia mais rápido.

— Foi só uma lembrança.

A segunda chave abriu a fechadura.

Quando Elena empurrou a porta, o cheiro da casa veio imediatamente.

Madeira. Poeira. Livros antigos.

E alguma coisa floral.

Lavanda.

Elena ficou parada na entrada.

Conhecia aquele cheiro.

Sua mãe usava perfume de lavanda.

Ou talvez fosse sua avó.

Ela já não sabia.

Entrou.

O piso de madeira rangeu sob suas botas.

O hall era enorme. Uma escadaria começava no centro e se dividia em duas no andar superior. Um lustre antigo pendia do teto. Havia quadros nas paredes, móveis cobertos por lençóis e um relógio alto no canto.

Elena fechou a porta.

O som ecoou pela casa.

Por um instante, pareceu ter acabado de se trancar dentro de alguma coisa.

Acendeu as luzes.

Nada aconteceu.

— Ótimo.

Pegou o celular e ligou a lanterna. O advogado mencionara que a eletricidade estava funcionando. Talvez a tempestade tivesse derrubado a energia.

Abriu as cortinas das janelas do hall e a luz cinzenta do fim da tarde entrou.

Aos poucos, o interior da casa surgiu.

E havia fotografias.

Muitas.

Sobre móveis. Nas paredes. Em pequenas molduras.

Elena aproximou-se.

Reconheceu a avó imediatamente. Aurora Valença era uma mulher bonita. Mesmo nas fotografias mais recentes, mantinha uma postura elegante e quase severa.

Em uma moldura menor, encontrou a mãe.

Isabel.

Elena segurou a fotografia.

A mulher sorria para a câmera com os cabelos escuros presos de qualquer jeito, sentada na varanda daquela mesma casa.

Elena ficou olhando por mais tempo do que pretendia.

Tinha poucas fotografias da mãe. Seu pai nunca gostara de falar sobre Isabel, e sempre que Elena perguntava, ele respondia o necessário e mudava de assunto.

A morte fora um acidente.

Era tudo que dizia.

Um acidente perto do lago.

Elena passou o polegar sobre o vidro.

Havia outra pessoa na fotografia.

Uma menina sentada no colo de Isabel.

Ela mesma.

Devia ter cinco ou seis anos.

Elena sentiu a garganta apertar.

A criança sorria.

Parecia feliz ali.

Como alguém poderia esquecer completamente um lugar em que fora feliz?

Um estrondo veio do andar de cima.

Elena quase deixou a fotografia cair.

Levantou a cabeça.

Silêncio.

— Tem alguém aí?

A própria voz voltou em eco.

Nenhuma resposta.

Ela colocou a fotografia no lugar.

Provavelmente uma janela.

Era isso.

A casa era velha, havia vento, chuva e dezenas de explicações perfeitamente normais para ruídos.

Elena precisava repetir aquilo até acreditar.

Subiu a escada devagar.

Cada degrau reclamava sob seus pés.

O corredor do segundo andar era comprido e escuro, com portas dos dois lados. No final, uma janela estreita mostrava o lago através da chuva.

Elena abriu o primeiro quarto.

Vazio.

O segundo parecia ter sido um escritório.

O terceiro estava trancado.

Ela tentou duas chaves.

Nenhuma funcionou.

Fez uma anotação mental para descobrir aquilo depois.

Quando abriu a quarta porta, parou.

O quarto estava intacto.

Não havia lençóis cobrindo os móveis.

A cama estava arrumada.

Havia livros numa estante baixa, uma penteadeira branca e pequenas estrelas de madeira penduradas perto da janela.

Elena entrou.

A sensação veio imediatamente.

Conheço este lugar.

A frase não surgiu como pensamento.

Pareceu quase uma certeza física.

Ela caminhou até a estante.

Livros infantis.

Alguns estavam gastos nas bordas.

Retirou um deles.

Na primeira página, escrito com uma letra delicada:

“Para Elena, para que nunca tenha medo da noite. Mamãe.”

Elena prendeu a respiração.

Sentou-se na beirada da cama.

Aquele era seu quarto.

Seu quarto de infância.

Passou os olhos pelo ambiente procurando alguma lembrança, qualquer coisa.

Nada.

Então viu o desenho preso atrás da porta.

Era infantil, feito com lápis de cor.

Uma casa.

Três pessoas.

Uma mulher de cabelos escuros. Uma menina loira. E, um pouco afastada, uma figura completamente pintada de preto.

Elena se levantou.

Abaixo do desenho havia letras tortas.

MAMÃE, EU E O HOMEM DO LAGO.

Seu estômago se contraiu.

— Que homem?

Ela puxou o papel da parede.

No verso havia uma data.

Dezoito anos antes.

Poucas semanas antes da morte de sua mãe.

Elena releu as palavras.

O homem do lago.

Uma batida seca veio do corredor.

Ela se virou.

— Alô?

Nada.

Saiu do quarto.

A porta que antes estava trancada permanecia fechada.

Mas, no chão, diante dela, havia água.

Elena franziu a testa.

Abaixou-se.

Tocou.

Gelada.

Olhou para o teto.

Nenhuma infiltração aparente.

A água formava pequenas marcas sobre a madeira.

Pegadas.

Pés descalços.

Elena ficou imóvel.

As marcas começavam diante da porta trancada.

Seguiam pelo corredor.

E iam em direção à escada.

Seu primeiro impulso foi rir de nervoso.

Aquilo era absurdo.

Talvez ela tivesse entrado com os sapatos molhados e não percebido.

Mas aquelas marcas não tinham o formato de botas.

E eram pequenas.

Pequenas como pés de criança.

Elena recuou.

Uma.

Duas.

Três pegadas.

Até desaparecerem.

Ela sentiu a pele dos braços arrepiar.

O celular vibrou em sua mão.

Elena quase gritou.

Uma mensagem finalmente havia chegado.

Era do advogado.

“Espero que tenha chegado bem. Um aviso: a senhora Aurora pediu expressamente que, caso você decidisse ficar na casa, não mexesse no quarto do fim do corredor antes de falar comigo.”

Elena levantou lentamente os olhos.

A porta trancada.

Digitou imediatamente:

“Por quê?”

A mensagem não foi enviada.

Sem sinal outra vez.

— Perfeito.

Guardou o celular.

Já estava escurecendo e a ideia de dormir naquela casa parecia cada vez menos inteligente.

Desceu.

Encontrou velas numa gaveta da cozinha e fósforos num armário. A cozinha era grande, antiga, mas surpreendentemente organizada. Havia louças guardadas, panelas e alguns alimentos não perecíveis.

Aurora devia ter vivido ali até pouco antes de morrer.

Isso significava que a casa não estava realmente abandonada.

Elena acendeu quatro velas e colocou duas na sala.

A chuva continuava.

Não havia sinal de que a energia voltaria.

Tentou ligar para o advogado.

Nada.

Tentou para o pai.

Nada.

O isolamento começou a incomodá-la.

Ela poderia ir embora.

O carro estava lá fora.

Poderia voltar ao centro e procurar uma pousada.

Foi até a janela.

A tempestade piorara.

Mal conseguia enxergar o caminho de pedras.

— Amanhã — decidiu.

Uma noite.

Era apenas uma noite.

Preparou um sanduíche com o que havia trazido na viagem e sentou-se à mesa da cozinha.

Não tinha fome.

Enquanto comia, observava o corredor escuro além da porta.

A casa fazia barulhos.

Madeira estalando.

Canos.

Vento.

Chuva.

Todos normais.

Mesmo assim, Elena tinha a impressão de que, entre um ruído e outro, havia alguma coisa diferente.

Como passos muito distantes.

Terminou de comer e levou uma vela até a sala.

Foi então que viu o espelho.

Estava encostado contra uma parede, parcialmente coberto por um tecido preto.

Elena não lembrava de tê-lo visto antes.

Era enorme, quase de sua altura, cercado por uma moldura de madeira escura cheia de detalhes.

Aproximou-se.

Puxou o tecido.

Uma nuvem de poeira subiu.

O reflexo apareceu.

Elena.

A sala atrás dela.

A luz das velas.

Ela observou o próprio rosto cansado.

E então percebeu algo gravado na parte inferior da moldura.

Três pequenas luas.

Uma cheia.

Uma crescente.

Uma completamente escura.

Passou os dedos sobre o símbolo.

Um arrepio percorreu sua nuca.

No espelho, alguma coisa se moveu atrás dela.

Elena virou-se imediatamente.

Nada.

A sala estava vazia.

Olhou de novo para o reflexo.

Nada.

— Você está cansada.

Cobriu o espelho outra vez.

Dessa vez, não retirou o tecido.

Às dez e meia, decidiu dormir.

Escolheu um quarto de hóspedes no térreo. Não tinha nenhuma intenção de voltar ao segundo andar naquela noite.

Trancou a porta.

Deixou uma vela acesa sobre uma bandeja metálica, longe das cortinas, e deitou-se ainda vestida.

A chuva batia contra as janelas.

Elena fechou os olhos.

Pensou na mãe.

No desenho.

No homem do lago.

Na mulher que vira na estrada.

Não.

Não pensaria nisso.

Virou para o lado.

O cansaço finalmente venceu.

Quando abriu os olhos novamente, o quarto estava escuro.

A vela havia apagado.

Elena levou alguns segundos para entender onde estava.

Pegou o celular.

03:17.

Sentou-se.

Alguma coisa a despertara.

Ficou escutando.

Silêncio.

Então ouviu.

Passos.

No corredor.

Lentos.

Um passo.

Pausa.

Outro.

Elena prendeu a respiração.

Não era a madeira estalando.

Alguém estava andando do lado de fora do quarto.

Pegou o celular e acendeu a lanterna.

Os passos pararam diante da porta.

Elena não se mexeu.

— Quem está aí?

Nada.

Seu coração batia tão forte que doía.

Levantou-se.

Aproximou-se da porta.

Encostou o ouvido na madeira.

Silêncio.

Sua mão encontrou a maçaneta.

Talvez fosse um animal.

Talvez uma janela aberta.

Talvez alguém tivesse entrado na casa.

A última possibilidade era pior que todas as outras.

Elena destrancou a porta.

Abriu de uma vez.

O corredor estava vazio.

Passou a luz de um lado para o outro.

— Tem alguém aqui?

Nenhuma resposta.

Saiu.

Foi até a sala.

Vazia.

Cozinha.

Vazia.

A porta principal continuava trancada.

As janelas também.

Elena soltou o ar.

Estava prestes a voltar para o quarto quando a luz do celular iluminou o chão.

Ela parou.

Água.

Desta vez não eram pequenas pegadas.

Eram marcas de pés adultos.

Descalços.

Molhados.

Começavam perto da escada.

Elena acompanhou-as com a luz.

Uma depois da outra.

Atravessavam a sala.

Seu coração acelerou.

As pegadas terminavam diante do espelho coberto.

Elena ficou olhando.

Uma gota de água escorreu pela madeira da moldura.

Depois outra.

Ela não queria chegar perto.

Cada instinto dizia para voltar ao quarto, trancar a porta e esperar amanhecer.

Mas havia algo mais forte do que o medo.

A necessidade de entender.

Elena avançou.

Segurou o tecido.

Puxou.

O espelho estava coberto de condensação.

Como se tivesse sido retirado de um lugar extremamente frio.

Elena passou a mão pelo vidro.

O reflexo apareceu.

Seu rosto.

A sala.

A escada.

E alguém parado no andar superior.

Elena congelou.

Uma mulher.

Vestido claro.

Cabelos longos e escuros.

O mesmo corpo imóvel que ela vira entre as árvores.

Elena virou-se.

O alto da escada estava vazio.

Olhou para o espelho outra vez.

A mulher continuava lá.

Mas agora estava mais perto.

Elena recuou.

— Não...

A figura ergueu lentamente o rosto.

Elena sentiu o ar desaparecer dos pulmões.

Conhecia aquele rosto.

Tinha acabado de vê-lo em uma fotografia.

— Mãe?

As luzes da casa acenderam de uma vez.

Elena gritou.

O lustre brilhou.

A televisão ligou sozinha.

O relógio antigo começou a bater.

Uma.

Duas.

Três vezes.

Elena protegeu os olhos por causa da claridade repentina.

Quando tornou a olhar para o espelho, não havia ninguém.

Apenas ela.

A sala.

A escada vazia.

Elena respirava rápido.

Então percebeu algo escrito na superfície embaçada.

As letras surgiam lentamente, como se um dedo invisível estivesse desenhando por dentro do vidro.

NÃO ABRA A PORTA.

Elena não conseguiu se mover.

Uma pancada ecoou no segundo andar.

A porta trancada.

Outra pancada.

Mais forte.

Depois outra.

Elena olhou para a escada.

O som parou.

Durante alguns segundos, não aconteceu nada.

Então, do andar de cima, uma maçaneta começou a girar.

Devagar.

Elena recuou até esbarrar no sofá.

A porta no fim do corredor se abriu com um rangido.

Mesmo dali, ela ouviu.

E, pela primeira vez desde que chegara a Santa Aurora, uma lembrança verdadeira atravessou sua mente.

Ela era criança.

Estava escondida debaixo de uma cama.

Sua mãe chorava.

Alguém batia naquela mesma porta.

Aurora gritava alguma coisa no corredor.

E Isabel segurava o rosto da filha entre as mãos.

“Não importa o que você ouvir, Elena.”

A lembrança falhou.

Depois voltou.

O rosto da mãe.

Os olhos cheios de medo.

“Quando a noite chamar pelo seu nome... não responda.”

Elena abriu os olhos.

Estava novamente na sala.

E então ouviu.

Vindo do alto da escada.

Baixo.

Quase carinhoso.

— Elena...

Seu sangue gelou.

A voz era de sua mãe.