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Entre a Lei e Nós

CAPÍTULO 2

O nome que ficou para trás

A porta do banheiro permaneceu fechada.

Augusto continuou sentado na cama, com os pés apoiados no chão e os olhos fixos no ponto onde Heloísa desaparecera.

Gabriel Ferraz.

O nome não lhe dizia nada.

A reação dela, sim.

Não fora apenas surpresa. Augusto conhecia Heloísa o suficiente para distinguir susto de medo, irritação de desconforto, silêncio de simples falta de vontade de conversar. O que vira no rosto dela quando reconhecera a voz do homem do outro lado da linha tinha sido uma mistura difícil de nomear.

E depois viera a pior resposta possível.

“Uma pessoa que eu conheci há muito tempo.”

Augusto passou a mão pelo rosto.

Não bateu à porta.

Não perguntou de novo.

Se havia uma coisa que aprendera no pouco tempo de casamento, era que pressionar Heloísa quando ela se fechava produzia o efeito contrário.

Ainda assim, quando ouviu o chuveiro ligar, uma pergunta se instalou nele.

Quem era Gabriel Ferraz?

• • •

Heloísa ficou debaixo da água por mais tempo do que precisava.

Não estava tentando fugir de Augusto.

Estava tentando organizar uma parte da própria vida que passara anos cuidadosamente empilhando em algum lugar onde não precisasse olhar.

Gabriel não deveria estar de volta.

Mais importante: Gabriel não deveria ter seu número.

Ela fechou os olhos.

O passado veio em fragmentos.

Um estacionamento vazio.

Uma discussão dentro de um carro.

A camisa branca de Gabriel manchada de sangue que não era dele.

Sirene.

Um processo.

Um acordo.

Uma promessa feita entre duas pessoas jovens demais para entender quanto tempo uma promessa podia sobreviver.

Heloísa abriu os olhos imediatamente.

Não.

Não iria fazer aquilo.

Não às sete da manhã.

Quando saiu do banheiro, Augusto estava terminando de abotoar a camisa.

Ele não perguntou nada.

Aquilo deveria ter sido um alívio.

Não foi.

Heloísa abriu o armário e escolheu a roupa.

— Você vai sair antes? — perguntou.

— Posso.

— Eu tenho reunião às oito e meia.

— Então vai primeiro.

A conversa parecia normal.

Só parecia.

Heloísa terminou de se vestir e foi até a cômoda.

A pequena caixa de madeira estava aberta.

A aliança de Augusto não estava mais ali.

Ele já a tinha retirado do dedo.

A dela permanecia no espaço onde fora colocada no dia anterior.

Heloísa olhou por alguns segundos.

Augusto percebeu pelo espelho.

— Você não colocou ontem.

— Eu sei.

— Vai usar em casa?

Ela virou.

— É uma pergunta ou uma cobrança?

— Uma pergunta.

Heloísa pegou a aliança.

Por um instante, Augusto pareceu relaxar.

Então ela não colocou no dedo.

Guardou-a no bolso interno da bolsa.

— Heloísa.

— Estou atrasada.

— Nós conversamos ontem.

— Conversamos. Não resolvemos.

— E isso é o quê?

Ele indicou a bolsa.

— Eu não sei ainda.

A resposta foi sincera.

Talvez por isso tenha doído mais.

Augusto ficou quieto.

Heloísa pegou a pasta.

Antes de sair do quarto, parou.

— Gabriel foi meu namorado.

Augusto não esperava.

— Quando?

— Antes de você.

— Isso eu imaginei.

Ela ignorou o tom.

— Ficamos juntos por quase três anos.

A informação mudou a expressão dele.

Três anos não era um namoro irrelevante esquecido numa fotografia antiga.

— Por que nunca falou dele?

Heloísa apertou a alça da bolsa.

— Porque acabou.

— Só por isso?

Ela sustentou o olhar.

— Eu preciso trabalhar.

Saiu.

Augusto ficou sozinho novamente.

Dessa vez, o nome tinha história.

E isso era pior.

• • •

Heloísa chegou ao escritório dez minutos antes da primeira reunião.

Marina já tinha deixado café sobre a mesa e uma pilha de documentos separados por prioridade.

— Bom dia.

— Bom dia.

— O senhor Vinícius mandou o contato do comprador da moto.

— Ótimo. Confirma a autenticidade do anúncio e pede autorização formal para contato.

— Certo.

Marina colocou outra pasta.

— E chegou um pedido novo.

— Urgente?

— Aparentemente.

Heloísa abriu.

Uma mulher de cinquenta e dois anos, Teresa Lobo, procurava defesa para o filho, Daniel, preso na noite anterior após uma confusão em um posto de gasolina. A acusação inicial era de roubo porque outro rapaz do grupo teria tomado o celular de um motorista mediante ameaça.

Daniel alegava não ter participado.

Heloísa leu o resumo.

— Tem audiência de custódia?

— Hoje, onze e meia.

— Quem fez o atendimento inicial?

— Doutor Henrique. Mas a família pediu você.

Heloísa olhou o relógio.

— Liga para a mãe. Quero falar com ela antes das nove. Depois pede cópia integral do auto e verifica se existem câmeras no posto.

— Certo.

Marina saiu.

O trabalho ajudava.

Era uma das poucas coisas capazes de obrigar Heloísa a permanecer no presente.

Ela abriu o auto de prisão.

Daniel estava no banco traseiro do carro quando o celular fora levado.

Isso, sozinho, não o tornava inocente.

Também não o tornava autor.

Havia quatro jovens no veículo. Um deles descera. O motorista da vítima afirmava ter visto “todos incentivando”.

Nenhuma descrição individual.

Heloísa começou a anotar.

Às oito e vinte e seis, o telefone pessoal vibrou.

Número desconhecido.

Ela não precisava olhar duas vezes.

Recusou.

Vibrou de novo.

Recusou.

Na terceira tentativa, bloqueou o número.

Dois minutos depois, chegou um e-mail.

De: Gabriel Ferraz.

Assunto: Você precisa me ouvir.

Heloísa não abriu.

Virou o celular para baixo.

• • •

Augusto tentou trabalhar.

Não conseguiu nos primeiros vinte minutos.

Leu o mesmo parágrafo de um relatório três vezes antes de perceber que não absorvera uma palavra.

Michael apareceu na porta.

— Bom dia.

— Bom.

— Mentira.

Augusto levantou os olhos.

— Você não tem serviço?

— Tenho. Mas Jennifer está falando com uma testemunha e me expulsou porque eu interrompi duas vezes.

— Fez certo.

Michael entrou.

— O que aconteceu?

— Nada.

— Vocês brigaram de novo?

Augusto não respondeu.

Michael sentou.

— Certo. Mudando de estratégia. Você quer falar de futebol?

— Não.

— Política?

— Menos ainda.

— Sua sogra que não sabe que é sua sogra?

Augusto lançou um olhar.

— Michael.

— Funcionou. Você reagiu.

Augusto fechou a pasta.

— Você conhece Gabriel Ferraz?

Michael parou de sorrir.

Foi rápido.

Mas Augusto viu.

— Conhece.

— De onde saiu esse nome?

— Responde.

Michael apoiou os cotovelos nos joelhos.

— Conheço de nome.

— De quem?

— Da Heloísa.

— Jennifer te contou?

— Há muito tempo.

Augusto ficou imóvel.

— Jennifer sabe?

Michael percebeu o erro.

— Augusto...

— Jennifer sabe quem é o ex da minha esposa e eu não.

— Não coloca assim.

— Como eu coloco?

— Como uma coisa que aconteceu antes de você conhecer a Heloísa.

— O que aconteceu?

Michael ficou sério.

— Isso você pergunta para ela.

— Então aconteceu alguma coisa.

— Todo relacionamento de três anos tem alguma coisa.

Augusto estreitou os olhos.

— Você sabia que eles ficaram três anos?

Michael suspirou.

— Sabia.

— Excelente.

— Não faz isso.

— Isso o quê?

— Transformar informação que você nunca perguntou em segredo contra você.

Augusto se levantou.

— Eu não sabia nem o nome dele.

— Porque talvez ela não quisesse falar.

— Por quê?

Michael ficou em silêncio.

Augusto percebeu.

— Você sabe.

— Sei que terminou mal.

— Como?

— Não é minha história.

— Michael.

— Não.

A firmeza surpreendeu.

— Eu sou seu amigo. Também sou amigo dela. Não vou contar uma coisa que ela não escolheu contar para você.

Augusto deu uma risada sem humor.

— Todo mundo parece saber onde colocar limites comigo.

— Talvez porque você esteja tentando atravessar um.

A frase ficou.

Michael levantou.

— Fala com sua esposa.

— Ela não quis falar.

— Então espera até ela querer.

— Fácil.

— Não. Casamento não parece fácil.

Augusto olhou para ele.

— Você está muito filosófico ultimamente.

— Culpa de vocês dois.

Michael saiu.

Augusto voltou a olhar para o relatório.

Dessa vez, além de Gabriel, havia outra pergunta.

Por que Jennifer e Michael sabiam de uma parte da vida de Heloísa que ele nunca ouvira?

• • •

Às nove, Teresa Lobo entrou no escritório de Heloísa chorando.

Isso encerrou qualquer possibilidade de pensar em Gabriel por algum tempo.

Heloísa ofereceu água e esperou a mulher conseguir falar.

— Meu filho não rouba ninguém.

— Eu entendo que a senhora acredita nele. Mas eu preciso saber exatamente o que aconteceu, inclusive as partes ruins.

Teresa assentiu.

Daniel saíra com três amigos. Tinham bebido. Um deles, Leandro, discutira com um motorista no posto. A discussão crescera. Leandro arrancara o celular da mão do homem e voltara para o carro.

— Daniel estava dirigindo?

— Não. Estava atrás.

— Quem dirigia?

— Bruno.

— Seu filho sabia que Leandro ia pegar o telefone?

— Não.

— Depois que Leandro entrou no carro, Daniel viu o celular?

— Imagino que sim.

— Eles foram embora?

— Foram.

— Daniel pediu para parar?

Teresa hesitou.

Heloísa percebeu.

— Dona Teresa, eu não preciso de uma versão bonita. Preciso da verdadeira.

— Ele disse que ficou com medo.

— Então não pediu.

— Não.

Heloísa anotou.

— Isso importa.

A mulher começou a chorar novamente.

— Ele vai ficar preso?

— Eu não posso prometer resultado. Na audiência de hoje, vou discutir a necessidade da prisão e individualizar a conduta dele. Depois vamos trabalhar o mérito.

— Ele nunca foi preso.

— Tem antecedentes?

— Nenhum.

— Trabalho?

— Auxiliar de mecânico.

— Endereço fixo?

— Mora comigo.

Heloísa continuou.

Quando Teresa saiu, ela já tinha uma linha de defesa concreta.

Não precisava transformar Daniel em santo.

Precisava impedir que a conduta de Leandro fosse automaticamente atribuída a todos que estavam no carro.

Marina entrou logo depois.

— Conseguimos as câmeras do posto. O gerente vai preservar e entregar mediante solicitação formal.

— Ótimo.

— E tem um homem esperando na recepção.

Heloísa continuou escrevendo.

— Quem?

Marina não respondeu imediatamente.

Heloísa levantou os olhos.

— Marina?

— Gabriel Ferraz.

A caneta parou.

O escritório ficou silencioso.

— Ele disse que tem horário?

— Não.

— Então não tem reunião.

— Quer que eu mande embora?

Heloísa respirou.

A vontade era dizer sim.

Mas Gabriel já tinha ligado.

Mandado e-mail.

Agora aparecera pessoalmente.

Se ela o expulsasse, ele voltaria.

— Cinco minutos.

Marina assentiu.

— Porta aberta?

Heloísa quase sorriu.

— Fechada.

• • •

Gabriel mudou.

Era a primeira coisa que Heloísa percebeu quando ele entrou.

Não o suficiente para se tornar estranho.

O cabelo escuro estava um pouco mais curto. O rosto mais maduro. Havia linhas discretas perto dos olhos que não existiam quando ela o vira pela última vez.

Mas o jeito de entrar em uma sala continuava igual.

Como se primeiro medisse todas as saídas.

Ele parou diante da mesa.

— Oi, Helô.

— Não me chama assim.

Gabriel assentiu.

— Heloísa.

Ela não ofereceu cadeira.

Ele sentou mesmo assim.

— Você está bem.

— Você não veio aqui para descobrir isso.

— Não.

— Então fala.

Gabriel observou o escritório.

— Virou exatamente o que dizia que ia virar.

— Advogada?

— Uma boa advogada.

— Você não sabe se sou boa.

— Eu acompanhei algumas coisas.

Heloísa sentiu desconforto.

— Por quê?

— Porque eu sabia que um dia teria que voltar.

— Não tinha.

— Tinha.

Ela cruzou os braços.

— O que você quer?

Gabriel ficou sério.

— O caso foi reaberto.

Heloísa não se mexeu.

Por dentro, alguma coisa despencou.

— Não existe caso para reabrir.

— Existe agora.

— Do que você está falando?

Gabriel colocou um envelope sobre a mesa.

Heloísa não tocou.

— Recebi isso há quatro dias.

— O que é?

— Cópia de uma representação.

— Contra quem?

— Ainda não sei exatamente.

— Gabriel.

— O nome de Ricardo apareceu.

O ar faltou por um instante.

Heloísa olhou para a porta fechada.

— Ele está morto.

— Eu sei.

— Então para de falar em código.

Gabriel se inclinou.

— Alguém está questionando o que aconteceu naquela noite.

Heloísa sentiu os dedos ficarem frios.

— Depois de todos esses anos?

— Sim.

— Quem?

— Não sei.

— Mentira.

— Não sei, Heloísa.

— Você sempre soube mais do que dizia.

A expressão dele endureceu.

— E você sempre soube exatamente o mesmo que eu.

Silêncio.

O passado estava ali.

Inteiro.

Sentado diante dela.

— Vai embora.

— Você precisa ler.

— Não.

— Seu nome pode aparecer.

— Meu nome já apareceu naquela época.

— Não assim.

Heloísa finalmente pegou o envelope.

Não abriu.

— Por que veio até mim?

Gabriel olhou para ela por alguns segundos.

— Porque se isso voltar, não vai atingir só nós dois.

— Quem mais?

Ele não respondeu.

Heloísa sentiu raiva.

— Não faz isso comigo.

— Eu não estou fazendo.

— Você aparece depois de anos, liga para meu número, vem ao meu escritório e fala como se uma bomba estivesse prestes a explodir. Então termina a frase.

Gabriel baixou a voz.

— Tem gente procurando o arquivo original.

— Que arquivo?

— O laudo que sumiu.

Heloísa ficou imóvel.

O envelope pesou na mão.

— Esse laudo nunca existiu.

Gabriel sustentou o olhar.

— Foi isso que nós dissemos.

• • •

Quando Gabriel saiu, Heloísa trancou a porta.

Não abriu o envelope imediatamente.

Ficou de pé diante da janela, tentando respirar normalmente.

O laudo.

Não pensava naquilo havia anos.

Ou, pelo menos, fingia não pensar.

O telefone vibrou.

AUGUSTO: Consegue almoçar comigo?

Heloísa leu.

Era quase cruel.

Ela queria Augusto naquele instante.

Queria chegar perto dele e contar tudo.

Queria dizer que Gabriel tinha voltado, que havia uma história anterior aos dois, que existira uma noite, um processo, um laudo que oficialmente nunca chegara aos autos.

Queria que o marido soubesse.

Mas havia coisas que, uma vez ditas, não podiam ser recolhidas.

E havia outra questão ainda pior.

Augusto era promotor.

Não apenas marido.

HELOÍSA: Tenho audiência de custódia às 11h30.

AUGUSTO: Depois?

Ela olhou para o envelope.

HELOÍSA: Não sei que horas termino.

AUGUSTO: Tudo bem.

Heloísa colocou o telefone sobre a mesa.

“Tudo bem.”

Não estava.

• • •

Na audiência de custódia, Heloísa voltou a ser precisa.

Daniel estava abatido.

Leandro, o rapaz apontado como responsável por tomar o celular, tinha outra defesa.

O Ministério Público requereu manutenção da prisão de Leandro e medidas cautelares para os demais, destacando que a investigação ainda precisava esclarecer a participação individual.

Augusto não estava naquela audiência.

Outro promotor atuava.

Heloísa percebeu o alívio e odiou perceber.

Defendeu que Daniel não tinha antecedentes, tinha residência fixa, trabalho e, até aquele momento, nenhum elemento indicava que tivesse ameaçado a vítima ou tomado o bem.

O juiz concedeu liberdade provisória com cautelares.

Teresa chorou ao abraçar o filho.

Heloísa ficou alguns passos atrás.

Era por momentos assim que gostava da profissão.

Não porque acreditasse que todo cliente era inocente.

Mas porque acreditava que ninguém deveria carregar automaticamente o ato de outra pessoa sem prova individual.

Quando saiu da sala, o telefone tinha quatro notificações.

Uma de Marina.

Uma de Jennifer.

Duas de Gabriel.

Ela abriu a de Jennifer.

JENNIFER: Você está bem?

Heloísa franziu a testa.

HELOÍSA: Por quê?

A resposta veio.

JENNIFER: Michael falou que Augusto perguntou do Gabriel.

Heloísa fechou os olhos.

Claro.

HELOÍSA: E o que Michael contou?

JENNIFER: Nada que não fosse dele contar.

HELOÍSA: Obrigada.

JENNIFER: Você vai contar pro Augusto?

Heloísa ficou olhando para a pergunta.

Não respondeu.

• • •

Augusto almoçou sozinho.

Laura apareceu no restaurante por acaso, acompanhada de dois colegas, e acenou.

Ele respondeu.

Não a chamou.

Não porque Heloísa tivesse pedido.

Porque depois da discussão do dia anterior, entendia melhor o que aquele tipo de situação representava para ela.

Para Laura, ele era um homem solteiro.

Para qualquer pessoa naquele restaurante, também.

Augusto olhou para a mão sem aliança.

Pela primeira vez, sentiu vergonha do dedo vazio.

Não porque tivesse feito algo errado com Laura.

Mas porque Heloísa estava certa sobre uma coisa.

A versão pública da vida deles não tinha espaço para o casamento.

O telefone vibrou.

SENHORA BEATRIZ: Almoço domingo. Sem desculpas.

Augusto sorriu.

AUGUSTO: Vou tentar.

SENHORA BEATRIZ: Não pedi tentativa.

Ele guardou o telefone.

Sua mãe não sabia.

Os pais de Heloísa não sabiam.

Os colegas não sabiam.

Apenas Jennifer e Michael.

Quatro meses.

Talvez tivesse passado tempo demais chamando aquilo de proteção.

• • •

À tarde, Augusto recebeu um inquérito novo.

Uma série de golpes contra pequenos comerciantes.

O padrão era simples: alguém se apresentava como representante de uma empresa de pagamentos, oferecia substituição de máquinas de cartão e, durante a instalação, obtinha credenciais que permitiam desviar recebíveis.

Quatro vítimas.

Valores ainda relativamente baixos.

Mas o padrão se repetia.

Jennifer e Michael tinham participado das primeiras diligências.

Augusto chamou os dois.

— O que temos?

Jennifer abriu a pasta.

— Duas câmeras. Em uma delas aparece o suspeito, mas de boné e máscara.

— Veículo?

— Placa clonada.

Michael completou:

— O telefone usado para marcar as visitas foi ativado há três semanas e está em nome de terceiro.

— Terceiro real?

— Sim. Um homem de sessenta e oito anos que diz nunca ter comprado a linha.

Augusto leu.

— Então alguém usou os dados dele.

— Provavelmente.

— “Provavelmente” não entra no relatório.

Michael fez uma careta.

— Você e Heloísa falam igual.

O nome dela fez Augusto levantar os olhos.

Jennifer chutou discretamente a perna de Michael.

— Ai.

— Continua — disse Augusto.

O trabalho ocupou a hora seguinte.

E era exatamente disso que a história precisava: vidas profissionais que não existiam apenas para colocar marido e mulher um contra o outro.

Quando terminaram, Jennifer ficou.

Michael saiu primeiro.

— Você perguntou do Gabriel.

Augusto fechou a pasta.

— O Michael não sabe guardar nada.

— Ele guardou o que importa.

— Você conhece Gabriel?

— Conheço.

— Pessoalmente?

Jennifer hesitou.

— Sim.

Augusto ficou sério.

— Quanto?

— O suficiente.

— Jennifer.

— Eu não vou fazer o que você tentou fazer com Michael.

— Todo mundo combinou?

— Não. Só gostamos dos dois.

Augusto respirou.

— Ele voltou.

A expressão dela mudou.

— Como você sabe?

— Ligou para Heloísa hoje cedo.

Jennifer ficou imóvel.

— O que ele queria?

— Ela não contou.

— Certo.

Augusto percebeu a preocupação.

— O que aconteceu entre eles?

— Pergunta para ela.

— Eu perguntei.

— Então espera.

— Vocês sabem alguma coisa grave?

Jennifer demorou.

— Sei que foi uma época ruim.

— Isso significa o quê?

— Significa que ela precisa ser a pessoa a te contar.

Augusto assentiu devagar.

A irritação existia.

Mas, desta vez, não insistiu.

— Certo.

Jennifer levantou.

Antes de sair, parou.

— Augusto.

— O quê?

— Não transforma o fato de ela não ter contado ainda em prova de que não confia em você.

Ele não respondeu.

Jennifer saiu.

• • •

Heloísa abriu o envelope às cinco e quarenta.

Sozinha.

A representação era curta.

Alguém solicitava nova análise de documentos relacionados à morte de Ricardo Menezes, ocorrida seis anos antes após uma confusão na saída de uma festa privada.

Na época, a conclusão fora acidente seguido de omissão de socorro por pessoa não identificada.

Heloísa lembrava de cada linha.

Lembrava porque estivera lá.

Gabriel também.

O nome deles não aparecia na primeira página.

Na segunda, aparecia.

“Heloísa Prado.”

“Gabriel Ferraz.”

Testemunhas ouvidas à época.

Ela continuou.

O pedido alegava existência de um laudo médico complementar que jamais fora juntado integralmente ao procedimento e que poderia alterar a cronologia da morte.

Heloísa parou.

O coração batia forte.

A última página trazia uma referência.

Documento anexado parcialmente.

Ela virou.

Uma cópia ruim.

Cabeçalho de hospital.

Data.

Assinatura ilegível.

E uma frase sublinhada:

“Lesões incompatíveis, em princípio, com queda simples da própria altura.”

Heloísa largou o papel.

Durante seis anos, aquela frase não existira.

Oficialmente.

Gabriel tinha razão.

Alguém encontrara o laudo.

• • •

Ela chegou em casa depois das nove.

Augusto estava sentado no sofá.

A televisão desligada.

— Oi.

— Oi.

Heloísa deixou a bolsa.

O envelope estava lá dentro.

Parecia ocupar o apartamento inteiro.

Augusto levantou.

— Você está pálida.

— Dia longo.

— Gabriel?

Ela parou.

— Michael contou?

— Que ele foi seu namorado. Só.

— E Jennifer?

— Também não contou nada.

Heloísa assentiu.

Augusto se aproximou.

— Ele te procurou de novo?

Ela poderia mentir.

Quase mentiu.

— Foi ao escritório.

A expressão dele mudou.

— Hoje?

— Sim.

— Por quê?

Heloísa olhou para a bolsa.

— Por causa de uma coisa do passado.

— Que coisa?

Ela não respondeu.

Augusto soltou o ar.

— Heloísa, eu estou tentando não pressionar.

— Eu sei.

— Mas você recebe três ligações de um ex que eu nunca soube que existia, ele aparece no seu escritório e você chega em casa desse jeito.

— Eu sei.

— Então me ajuda.

As mesmas palavras que ele usara na noite anterior.

Dessa vez, ela sentiu o peso.

— Eu não sei como contar.

Augusto ficou quieto.

Heloísa sentou.

Ele se sentou diante dela.

— Começa do começo.

Ela olhou para ele.

Não conseguia.

Porque o começo não era Gabriel.

Era Ricardo.

Era aquela noite.

Era o que ela tinha feito depois.

— Houve um acidente — disse finalmente.

Augusto esperou.

— Quando eu estava com Gabriel.

— Que tipo de acidente?

— Um homem morreu.

O silêncio mudou.

— Vocês estavam envolvidos?

Heloísa apertou as mãos.

— Estávamos lá.

— Isso não responde.

— Eu sei.

Augusto ficou muito sério.

— Heloísa.

Ela levantou.

— Eu não consigo fazer isso agora.

— Você acabou de dizer que um homem morreu.

— Eu sei!

— E seu ex aparece seis anos depois por causa disso.

— Sim.

— Você quer que eu simplesmente durma?

— Eu quero tempo.

Augusto riu sem humor.

A ironia não passou despercebida.

Heloísa fechou os olhos.

— Não faz isso.

— O quê?

— Usa contra mim.

— Eu não usei.

— Sua cara usou.

Augusto levantou.

— Ontem você me perguntou quanto tempo eu precisava para contar sobre nosso casamento. Hoje eu descubro que existe uma morte no seu passado e você me pede tempo.

— Não é a mesma coisa.

— Eu sei que não é a mesma coisa!

Ele baixou a voz imediatamente.

— Eu sei.

Heloísa sentiu os olhos arderem.

— Eu tinha vinte e três anos.

— E?

— E fiz escolhas das quais não me orgulho.

Augusto ficou imóvel.

— Você cometeu algum crime?

A pergunta veio como promotor.

Mesmo que ele não quisesse.

Heloísa percebeu.

E se fechou na mesma hora.

— Pronto.

— O quê?

— Era disso que eu tinha medo.

— Heloísa, eu preciso saber.

— Não. O promotor precisa saber.

— Eu sou seu marido.

— Agora você é?

A frase saiu cruel.

Augusto recuou como se tivesse sido atingido.

Heloísa se arrependeu imediatamente.

— Augusto...

— Não.

Ele pegou a chave sobre a mesa.

— Onde você vai?

— Dar uma volta.

— Não sai assim.

— Eu preciso pensar antes de dizer alguma coisa que não dá para retirar.

A frase era dela.

Da discussão anterior.

Heloísa percebeu.

Augusto abriu a porta.

— Eu volto.

— Augusto.

Ele parou.

Ela queria pedir para ficar.

Queria contar.

Queria voltar para antes do telefone tocar naquela manhã.

Mas ficou em silêncio.

Augusto saiu.

• • •

Ele dirigiu sem destino por quase vinte minutos.

Não estava com raiva porque Heloísa tinha um ex.

Ou talvez uma parte pequena e idiota estivesse.

Mas não era isso.

Era a morte.

Era o modo como ela falara.

“Fiz escolhas das quais não me orgulho.”

Augusto estacionou numa rua tranquila.

Fechou os olhos.

Não podia investigar a própria esposa.

A simples ideia era absurda.

Também não podia desligar a parte da cabeça treinada para identificar lacunas.

Um homem morreu.

Gabriel estava lá.

Heloísa estava lá.

Algo voltara seis anos depois.

Ele pegou o celular.

Quase pesquisou o nome de Gabriel.

Não fez.

Bloqueou a tela.

Se Heloísa quisesse contar, contaria.

Se existisse procedimento atual que chegasse ao Ministério Público, ele declararia qualquer impedimento ou conflito necessário.

Era isso.

Procedimento.

Regra.

Limite.

Mas casamento não cabia inteiro em nenhuma dessas palavras.

• • •

Heloísa permaneceu sentada no sofá.

Depois de alguns minutos, tirou o envelope da bolsa.

Colocou sobre a mesa.

A aliança veio junto.

Ela tinha esquecido que estava no bolso interno.

O metal caiu sobre a madeira com um som pequeno.

Heloísa olhou.

Casamento.

Gabriel.

Ricardo.

Segredo.

Tudo parecia misturado.

O telefone vibrou.

GABRIEL: Você leu.

Não era pergunta.

Heloísa não respondeu.

Outra mensagem.

GABRIEL: Tem uma coisa que não está na cópia.

Ela pegou o celular.

HELOÍSA: O quê?

Os três pontos apareceram.

Sumiram.

Voltaram.

GABRIEL: O original tem uma anotação no verso.

HELOÍSA: Que anotação?

Demorou quase um minuto.

GABRIEL: Seu nome.

Heloísa ficou imóvel.

HELOÍSA: Meu nome já está no procedimento.

GABRIEL: Não como testemunha.

O coração acelerou.

HELOÍSA: Então como?

A resposta chegou.

GABRIEL: Como a última pessoa que viu Ricardo consciente.

Heloísa parou de respirar.

Seis anos antes, ela dissera que tinha ido embora antes.

Gabriel confirmara.

Os dois tinham sustentado a mesma versão.

E agora existia um documento dizendo o contrário.

A chave girou na porta.

Augusto estava voltando.

Heloísa olhou para a mensagem.

Depois para o envelope.

Depois para a aliança sobre a mesa.

Quando Augusto entrou, encontrou a esposa sentada no sofá com o rosto sem cor.

A raiva dele desapareceu.

— O que aconteceu?

Heloísa ergueu os olhos.

Dessa vez, não disse “nada”.

Mas também não contou.

— Augusto...

Ele se aproximou.

— Amor, o que foi?

A palavra quase a quebrou.

Heloísa apertou o celular.

O passado não estava apenas voltando.

Estava contradizendo a versão que ela tinha dado à polícia.

E, se o documento fosse verdadeiro, a pergunta já não era apenas se Augusto descobriria quem ela tinha sido antes dele.

Era se, quando descobrisse, ainda conseguiria acreditar em qualquer coisa que ela dissesse depois.

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