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Entre a Lei e Nós

CAPÍTULO 1

A parte que ninguém vê

A primeira coisa que Heloísa sentiu naquela manhã foi o peso do braço de Augusto sobre sua cintura.

A segunda foi o despertador vibrando em algum lugar debaixo do travesseiro.

Ela abriu os olhos devagar, ainda presa àquele estado confortável em que o quarto permanecia escuro o bastante para fingir que o dia não tinha começado. A cortina deixava passar apenas uma faixa estreita de luz, e a chuva fina batia contra a janela do apartamento com uma regularidade quase hipnótica.

Augusto dormia atrás dela, o rosto escondido parcialmente no cabelo de Heloísa, respirando com a tranquilidade irritante de quem não parecia ter uma audiência importante às nove da manhã.

Ela estendeu o braço para procurar o celular.

A mão de Augusto apertou sua cintura.

— Não.

Heloísa sorriu sem virar.

— Eu nem fiz nada.

— Ia desligar o despertador.

— Essa costuma ser a finalidade dele.

— E depois você ia levantar.

— Também costuma ser a finalidade de acordar.

Augusto abriu um olho.

— Discordo.

— Promotor, sete da manhã.

— Advogada, ainda está chovendo.

— O fórum não fecha porque você está confortável.

— Deveria.

Heloísa finalmente se virou dentro dos braços dele.

O cabelo estava desarrumado, a marca do travesseiro ainda no rosto, e Augusto parecia muito menos com o homem impecável que atravessava os corredores do fórum do que qualquer colega deles seria capaz de imaginar.

Era uma das coisas de que ela mais gostava.

Ali, entre quatro paredes, não existia o Promotor Castanhari.

Existia Augusto.

O homem que roubava o lado frio do travesseiro. Que deixava a toalha em cima da cama apesar de jurar que não fazia isso. Que sabia exatamente como ela gostava do café e sempre esquecia onde tinha colocado as próprias chaves.

Seu marido.

Heloísa deixou os olhos descerem até a mão dele.

A aliança estava ali.

A dela também.

Por alguns segundos, o conforto desapareceu.

Augusto percebeu.

— O que foi?

— Nada.

— Você fez a cara.

— Que cara?

— A cara de quando está pensando alguma coisa que vai fingir que não está pensando.

Heloísa soltou o ar.

— São sete e cinco. Não quero começar uma discussão antes do café.

— Então existe uma discussão.

— Augusto.

Ele a observou por um momento, mas não insistiu.

— Café primeiro.

— Obrigada.

Heloísa saiu da cama.

A aliança brilhou quando ela afastou o cabelo do rosto.

Ela tentou não olhar.

• • •

A cozinha cheirava a café fresco quando Augusto apareceu já de camisa social, mas ainda sem gravata.

Heloísa estava encostada na bancada, lendo uma mensagem no celular enquanto mordia uma torrada.

— Você vai derrubar farelo na roupa — ele comentou.

— Bom dia para você também.

— Eu já dei bom dia.

— Na cama não conta.

Augusto pegou a xícara dela e tomou um gole.

Heloísa olhou, ofendida.

— Essa é minha.

— Nosso casamento prevê comunhão de café.

— Nosso casamento não prevê roubo.

— Tecnicamente...

— Se você usar a palavra “tecnicamente” antes das oito, eu peço divórcio.

Augusto devolveu a xícara.

— Ameaça desproporcional.

Ela tentou não rir.

Funcionava assim com facilidade.

Era justamente por isso que doía tanto quando alguma coisa quebrava aquela normalidade.

O celular de Heloísa vibrou outra vez.

MÃE: Filha, seu pai quer saber se você vem no aniversário da sua tia no próximo mês. E eu também quero saber se existe algum namorado que você finalmente pretende apresentar.

Heloísa parou de mastigar.

Augusto, procurando a gravata sobre uma cadeira, não percebeu imediatamente.

Ela releu a mensagem.

Algum namorado.

Seu polegar ficou parado sobre a tela.

— Achou minha gravata azul? — perguntou Augusto.

Heloísa não respondeu.

Ele olhou.

— Amor?

Ela bloqueou o celular.

— Minha mãe.

— Aconteceu alguma coisa?

— Perguntou se eu vou ao aniversário da tia Cecília.

— Você vai?

— Não sei.

Augusto voltou a procurar a gravata.

— Se quiser, a gente pode ir.

Heloísa o encarou.

— A gente?

— Sim.

— Como?

Ele parou.

A pergunta parecia simples.

Não era.

— Heloísa...

— Como a gente iria, Augusto?

— Podemos pensar nisso.

— Pensar como?

— Amor, agora?

Ela riu sem humor.

— É. Agora não. Nunca é agora.

Augusto largou a gravata que acabara de encontrar.

— Não começa.

A frase a atingiu.

— Eu não comecei nada.

— Você sabe o que eu quis dizer.

— Sei. Você não quer discutir antes do trabalho.

— Nós dois temos audiência.

— Eu sei.

— Então podemos conversar à noite.

Heloísa olhou para o celular.

— Minha mãe perguntou se eu tenho namorado.

Augusto ficou quieto.

— E o que você respondeu?

— Nada ainda.

— Então não responde agora.

— Essa é sua solução?

— Não. É só não transformar uma mensagem da sua mãe numa briga às sete e meia.

Heloísa pegou a bolsa.

— Eu vou me arrumar.

— Heloísa.

Ela parou.

Augusto se aproximou.

— Eu sei que isso está ficando difícil.

— Não, você não sabe.

— Sei, sim.

— Você não mente para os seus pais dizendo que está solteiro.

— Minha mãe não pergunta.

— Porque sua mãe acha que você é incapaz de manter um relacionamento por mais de três meses.

— Isso foi desnecessário.

— Foi verdade.

Augusto respirou fundo.

Heloísa também.

A chuva continuava do lado de fora.

— A gente combinou — ele disse.

— Antes de casar.

— Sim.

— Eu sei o que combinei.

— Então...

— Só não sabia como seria viver assim depois.

Augusto ficou em silêncio.

Heloísa abaixou a voz.

— Eu tenho marido dentro de casa e sou solteira em todo o resto da minha vida.

Dessa vez, ele não teve resposta.

Ela entrou no quarto.

• • •

Vinte minutos depois, Heloísa estava diante do espelho.

Terno claro.

Cabelo preso.

Maquiagem discreta.

Pasta pronta.

A mulher refletida parecia ter tudo sob controle.

Ela olhou para a mão esquerda.

A aliança ainda estava ali.

Augusto apareceu atrás dela, já completamente vestido.

Nenhum dos dois retomara a conversa.

Ele pegou o relógio.

Heloísa abriu a pequena caixa de madeira sobre a cômoda.

Havia um espaço vazio.

O lugar onde sua aliança passava mais horas do dia do que no próprio dedo.

Ela não a tirou.

Augusto colocou o relógio.

Esperou.

— Amor.

Heloísa continuou olhando para o espelho.

— Eu sei.

— Vamos nos atrasar.

— Então vai.

Ele franziu a testa.

— O que foi?

— Nada.

— Heloísa.

Ela puxou a aliança.

O metal resistiu por um segundo antes de deslizar.

Heloísa colocou-a dentro da caixa.

— Pronto.

Augusto observou o gesto.

— Não precisa fazer assim.

Ela virou.

— Assim como?

— Como se eu estivesse arrancando a aliança da sua mão.

— Não está?

— Não.

— Parece.

— Estamos protegendo nossas carreiras.

— Estamos escondendo nosso casamento.

— Por enquanto.

Heloísa riu.

— Você adora essas duas palavras.

— Porque são verdade.

— Há quatro meses.

— E nós sabíamos que seria assim.

— Você já falou isso.

— Porque é verdade.

Heloísa pegou a pasta.

— Ótimo. Então não temos problema nenhum.

— Não faz isso.

— Isso o quê?

— Diz que está tudo bem quando claramente não está.

Ela abriu a porta do quarto.

— Não temos tempo, lembra?

Augusto ficou parado.

Heloísa saiu.

Poucos segundos depois, ele abriu a própria caixa e retirou a aliança.

Pela primeira vez, o gesto lhe pareceu diferente.

• • •

Eles não saíam juntos.

Heloísa desceu primeiro.

Augusto esperaria doze minutos.

No começo, aquilo tinha parecido quase divertido.

Uma operação ridícula inventada por duas pessoas que se achavam inteligentes demais para serem descobertas.

Carros separados.

Horários diferentes.

Nenhuma fotografia pública.

Nada de restaurantes próximos ao fórum.

Nada de alianças durante o expediente.

Jennifer e Michael eram os únicos que sabiam.

Tinham sido testemunhas no casamento civil e, durante semanas, trataram o segredo como uma piada particular.

Agora Heloísa já não achava graça.

Entrou no carro.

Antes de ligar o motor, o telefone vibrou.

MÃE: E então? Tem alguém?

Heloísa fechou os olhos.

Digitou.

HELOÍSA: Não, mãe. Continuo sozinha.

Ficou olhando para a frase.

Sozinha.

A mão apertou o celular.

Ela enviou.

O arrependimento veio imediatamente.

• • •

Às oito e quarenta, Heloísa Prado atravessou o saguão do fórum como se não tivesse discutido com o marido pouco mais de uma hora antes.

Era boa nisso.

Talvez boa demais.

Cumprimentou servidores, respondeu a uma pergunta de outro advogado e encontrou Jennifer perto dos detectores de metal.

A policial segurava um copo de café e tinha a expressão divertida de quem já sabia alguma coisa.

— Bom dia, senhora...

Heloísa lançou um olhar.

Jennifer corrigiu:

— Doutora Prado.

— Melhor.

— Dormiu bem?

— Por quê?

— Curiosidade.

— Você nunca pergunta isso por curiosidade.

Jennifer sorriu.

— Augusto chegou com cara de quem discutiu antes das oito.

Heloísa parou.

— Ele já chegou?

— Entrou pela garagem.

— Doze minutos viraram oito?

— Você está contando?

— Não.

— Está.

Heloísa retomou o caminho.

Jennifer acompanhou.

— Foi sério?

— Não.

— Então foi.

— Jennifer.

— Eu só quero saber se preciso esconder objetos cortantes no almoço.

Heloísa quase sorriu.

— Não aconteceu nada.

— Certo.

— Minha mãe perguntou se eu tenho namorado.

Jennifer perdeu o sorriso.

— Ah.

— Pois é.

— O que você respondeu?

Heloísa demorou.

Jennifer entendeu antes da resposta.

— Você disse que não.

— Disse.

— E ficou mal.

— Muito.

Jennifer olhou ao redor antes de baixar a voz.

— Você já falou com ele?

— Tentei.

— E?

— “Por enquanto.”

Jennifer fez uma careta.

— A frase favorita do Augusto.

— Exatamente.

— Quer que eu bata nele?

— Não.

— Posso pedir para o Michael.

— Pior ainda.

Jennifer sorriu, mas Heloísa não.

A policial ficou séria.

— Helô, se isso está machucando você...

— Depois.

Um grupo de advogados se aproximava.

A conversa morreu.

Heloísa voltou a ser apenas a Dra. Prado.

• • •

Augusto estava no gabinete lendo um relatório quando Michael entrou sem bater.

— Você parece péssimo.

— Bom dia.

— Brigou com sua esposa secreta?

Augusto ergueu os olhos.

— Fala mais alto.

Michael fechou a porta.

— Brigou?

— Não.

— Então essa cara é natural?

— Tenho audiência.

— Você tem audiência todo dia.

Augusto voltou ao relatório.

Michael sentou.

— Jennifer viu a Heloísa.

— E?

— Não sei. Ela não me contou ainda.

— Então por que está aqui?

— Porque sou seu amigo.

— Infelizmente.

Michael pegou uma bala da mesa.

— O que aconteceu?

Augusto fechou a pasta.

— A mãe dela perguntou se ela tem namorado.

Michael mastigou.

— E?

— Ela ficou chateada.

— Com razão.

Augusto olhou.

— Obrigado pelo apoio.

— Você quer apoio ou opinião?

— Nenhum.

— Então com razão.

Augusto recostou-se.

— Nós combinamos isso antes de casar.

— E?

— E ela sabia.

— Saber que uma coisa vai ser difícil não faz ela ficar fácil.

Augusto permaneceu em silêncio.

Michael apontou a bala.

— Profundo, eu sei.

— Vai trabalhar.

— Ela quer contar?

— Não sei.

— Você perguntou?

Augusto não respondeu.

Michael abriu um sorriso lento.

— Ah.

— Não começa.

— Você não perguntou.

— Eu sei que ela está cansada.

— Isso não é a mesma coisa.

Augusto fechou a expressão.

— Existe motivo para manter em segredo.

— Existe.

— Qualquer caso em que ela atue e eu tenha alguma participação vira questionamento. Qualquer decisão favorável a um lado vira fofoca. Qualquer investigação...

— Eu sei, Augusto.

— Então.

— Só estou dizendo que talvez você esteja tão preocupado em proteger o casamento do lado de fora que não percebeu o que está acontecendo do lado de dentro.

Augusto olhou para ele.

Michael levantou.

— Agora eu vou trabalhar.

— Finalmente.

Na porta, ele parou.

— Ah, e vocês dois estão na mesma audiência às nove.

— Eu sei.

— Vai ser divertido.

Augusto lançou a caneta.

Michael fechou a porta antes de ser atingido.

• • •

Às nove e sete, Heloísa entrou na sala de audiência.

Augusto já estava sentado.

Terno escuro.

Postura impecável.

Nenhum vestígio do homem que, duas horas antes, roubara o café dela.

Os olhos dele encontraram os seus.

Por um segundo, Heloísa viu o marido.

Então Augusto baixou os olhos para os autos.

— Bom dia, doutora Prado.

Ela sentiu a provocação escondida.

— Bom dia, promotor Castanhari.

O juiz ainda não tinha entrado.

O cliente de Heloísa, Vinícius Moraes, estava sentado ao lado dela.

Vinte e sete anos.

Funcionário de uma transportadora.

Sem antecedentes.

Acusado de participar do desvio de uma carga de eletrônicos avaliada em quase trezentos mil reais.

A acusação se apoiava principalmente em duas coisas: o crachá de Vinícius fora utilizado para abrir um portão lateral na noite do crime, e uma transferência de doze mil reais aparecera em sua conta três dias depois.

Para a promotoria, os elementos justificavam manter as medidas cautelares já impostas e aprofundar a investigação.

Para Heloísa, havia um problema básico.

Vinícius dizia que perdera o crachá dois dias antes e que o dinheiro viera da venda de uma motocicleta.

Ela tinha o anúncio.

Tinha mensagens com o comprador.

Tinha o comprovante da transferência.

E, naquela manhã, pretendia desmontar a ideia de que coincidência era sinônimo de prova.

Augusto sabia disso.

Não porque Heloísa tivesse contado em casa.

Eles nunca discutiam casos concretos entre si.

Sabia porque a defesa juntara os documentos aos autos.

A audiência começou.

A primeira testemunha era o supervisor de segurança da transportadora.

Augusto conduziu as perguntas com precisão.

— O acesso registrado às vinte e três horas e quarenta e oito foi realizado com qual identificação?

— Crachá 184.

— Vinculado a quem?

— Vinícius Moraes.

— O sistema exige senha?

— Não. Só aproximação.

Heloísa anotou.

Augusto continuou.

— Havia registro formal de perda do crachá antes do fato?

— Não.

— Obrigado.

Quando chegou sua vez, Heloísa levantou.

— Senhor Roberto, quantos funcionários trabalham no turno de Vinícius?

— Aproximadamente sessenta.

— Os crachás têm fotografia visível?

— Têm.

— O portão lateral possui câmera?

— Possui.

— A gravação mostra o rosto de quem usou o crachá?

Roberto hesitou.

— A câmera estava em manutenção.

— Há quanto tempo?

— Três dias.

— Essa manutenção estava registrada?

— Sim.

— Então, na noite do desvio, alguém que soubesse que a câmera estava fora de funcionamento poderia usar o crachá de outra pessoa sem ter o rosto registrado.

Augusto levantou.

— Excelência, a defesa está sugerindo uma conclusão à testemunha.

— Reformule, doutora.

Heloísa olhou para Augusto.

— Claro.

Voltou para Roberto.

— Era tecnicamente possível utilizar o crachá de outra pessoa?

— Sim.

— Obrigada.

Sentou.

Augusto não olhou para ela.

Heloísa conhecia aquela rigidez.

Ele estava irritado.

Profissionalmente.

E, apesar da manhã ruim, uma parte dela gostava.

Era ali que funcionavam melhor.

Quando nenhum dos dois precisava fingir que o outro era menos inteligente.

• • •

A audiência durou quase duas horas.

Ao final, o juiz manteve parte das cautelares, mas retirou a proibição de Vinícius exercer atividade profissional, considerando a documentação apresentada pela defesa e a ausência de elementos suficientes para vinculá-lo, naquele momento, à execução material do desvio.

Não era absolvição.

Não era vitória definitiva.

Mas permitia que Vinícius voltasse a trabalhar.

Do lado de fora, ele respirou como se tivesse passado duas horas sem ar.

— Doutora, obrigado.

— Ainda não acabou.

— Eu sei.

— Preciso que você me envie hoje o contato do comprador da moto e autorização para pedir as imagens do condomínio no dia em que diz ter perdido o crachá.

— Envio.

— E não fale sobre o caso com colegas da transportadora.

— Certo.

Vinícius foi embora.

Heloísa fechou a pasta.

— Você foi cruel com a câmera.

A voz de Augusto veio atrás.

Ela virou.

O corredor estava cheio.

— Promotor Castanhari.

— Doutora Prado.

— Se a câmera estivesse funcionando, eu não precisaria ser cruel.

— Você fez parecer que a empresa desligou de propósito.

— Eu fiz uma pergunta.

— Com a sobrancelha.

Heloísa quase riu.

— Minha sobrancelha não consta em ata.

— Deveria.

Um advogado passou por eles.

— Vocês dois ainda vão se matar numa audiência.

Heloísa respondeu primeiro:

— Ele não teria essa sorte.

Augusto sorriu.

Para quem olhava, era rivalidade.

Para eles, era uma língua particular.

O sorriso de Heloísa desapareceu quando uma mulher se aproximou.

Laura Sampaio.

Promotora.

Elegante, segura, uma pasta sob o braço.

— Augusto.

Heloísa odiou a facilidade com que ela usava o primeiro nome.

— Laura.

— Você vai almoçar no restaurante novo em frente ao prédio?

— Ainda não sei.

Laura olhou para Heloísa.

— Doutora Prado.

— Doutora Sampaio.

— Ouvi dizer que a audiência foi movimentada.

— Sobrevivemos.

Laura sorriu para Augusto.

— Se decidir ir, me avisa. O pessoal vai em grupo.

— Certo.

Heloísa fechou a pasta com um pouco mais de força.

Augusto percebeu.

Claro que percebeu.

Laura se despediu.

Heloísa começou a andar.

Augusto acompanhou por alguns passos.

— Não.

Ela não olhou.

— Não o quê?

— Não faz essa cara.

— Que cara?

— Você sabe.

— Estou indo trabalhar.

— Heloísa.

Ela parou perto do elevador.

— Quer alguma coisa, promotor?

A formalidade era proposital.

Augusto baixou a voz.

— Você está com ciúme.

Heloísa abriu um sorriso incrédulo.

— De uma mulher convidando um homem solteiro para almoçar? Por quê?

A frase atingiu.

Augusto ficou sério.

As portas do elevador abriram.

Heloísa entrou.

Antes de fechar, disse:

— Bom almoço.

• • •

Ela não almoçou.

Voltou ao escritório e passou quase quarenta minutos analisando os documentos de Vinícius.

O problema não era Laura.

Heloísa sabia.

Laura não fazia ideia de que Augusto era casado.

Nenhuma mulher fazia.

Nenhum homem fazia.

Nenhum colega fazia.

A culpa não era deles.

Essa constatação piorava tudo.

Marina, sua secretária, apareceu na porta.

— Doutora, seu próximo cliente chegou.

— Quem?

— Gabriel Nunes. Caso da agressão no bar.

Heloísa assentiu.

— Cinco minutos.

Marina saiu.

O celular vibrou.

AUGUSTO: Não fui almoçar com a Laura.

Heloísa olhou.

Digitou.

HELOÍSA: Não é da minha conta. Você é solteiro.

Apagou.

Digitou de novo.

HELOÍSA: Estou trabalhando.

Enviou.

A resposta demorou.

AUGUSTO: Nós precisamos conversar hoje.

Heloísa ficou olhando.

HELOÍSA: Precisamos.

Guardou o celular.

Ainda estava irritada.

Mas uma parte dela sentiu alívio.

• • •

No Ministério Público, Augusto encarou a palavra “Precisamos” como se fosse uma peça particularmente desagradável de um processo.

Laura apareceu na porta.

— Vai comer?

— Já comi.

Era mentira.

Ela olhou para o café.

— Isso não é comida.

— Michael já me explicou.

— Então duas pessoas estão certas.

Augusto sorriu.

Laura entrou.

— Preciso de uma opinião sobre um inquérito.

A conversa mudou.

Era um caso de extorsão envolvendo um empresário que afirmava estar sendo pressionado por um ex-funcionário. Havia mensagens, mas o contexto era incompleto. Laura queria pedir uma diligência complementar antes de decidir se havia base para avançar.

Augusto leu parte do relatório.

— Eu pediria a íntegra das conversas, não só os prints.

— Também pensei.

— E ouviria a contadora.

— Por causa das transferências?

— Sim. Se o ex-funcionário está cobrando algo que diz ser devido, precisamos saber se existe relação financeira anterior antes de chamar toda cobrança de ameaça.

Laura assentiu.

— Perfeito.

Ela recolheu a pasta.

— Você está estranho hoje.

— Audiência.

— A Prado?

Augusto ergueu os olhos.

— O que tem?

— Nada. Vocês dois parecem gostar demais de discutir.

— É trabalho.

— Claro.

Laura saiu.

Augusto voltou ao telefone.

A mensagem de Heloísa continuava ali.

Precisamos.

Pela primeira vez, ele se perguntou se “por enquanto” ainda era uma resposta suficiente.

• • •

No fim da tarde, Jennifer e Michael estavam dentro de uma viatura descaracterizada esperando um homem sair de um depósito quando o assunto surgiu de novo.

— Eles brigaram — disse Jennifer.

Michael manteve os olhos na rua.

— Eu sei.

— Ele contou?

— O suficiente.

— Ela está cansada.

— Ele também está com medo.

Jennifer virou.

— Medo de quê?

— De o casamento virar argumento em todo processo.

— E ela está com medo de o casamento deixar de existir antes de alguém descobrir.

Michael olhou.

— Ela falou isso?

— Não com essas palavras.

— Então você está dramatizando.

— Eu sou muito boa nisso.

O rádio chiou.

Os dois voltaram ao trabalho.

O homem que esperavam acabara de sair.

A vida dos amigos podia estar complicada.

A deles também tinha crimes para resolver.

• • •

Heloísa chegou em casa às oito e vinte.

Augusto estava na cozinha.

Dessa vez, usando aliança.

A visão provocou nela uma emoção contraditória.

Era bonito.

E injusto.

Porque ali ele podia ser marido sem medo.

Ela largou a bolsa.

Augusto virou.

— Oi.

— Oi.

— Comeu?

— Não.

— Fiz massa.

Heloísa olhou para a panela.

— Você cozinhou?

— Não precisa parecer tão surpresa.

— Preciso, sim.

Ele quase sorriu.

Ela não facilitou.

— A gente precisa conversar.

— Eu sei.

Augusto desligou o fogo.

Nenhum dos dois sentou imediatamente.

Heloísa tirou o casaco.

A aliança dela ainda estava dentro da bolsa.

Augusto percebeu a mão vazia.

— Você não colocou de volta.

— Não.

— Por quê?

Heloísa demorou.

— Esqueci.

Era mentira.

Os dois sabiam.

Augusto puxou uma cadeira.

— Senta.

— Não sou testemunha.

— Heloísa.

Ela sentou.

Augusto ficou diante dela.

— Você quer contar.

Não era pergunta.

Heloísa cruzou os braços.

— Quero parar de mentir.

— Para todo mundo?

— Para os meus pais, para sua mãe, para nossos amigos, para quem perguntar.

— Isso não é simples.

— Eu sei.

— Existem consequências profissionais.

— Eu sei.

— Podem questionar casos antigos.

— Eu sei.

— Podem insinuar troca de informação.

— Augusto, eu sei!

Ele parou.

Heloísa respirou.

— Você acha que eu não penso nisso? Acha que eu não sei exatamente o que vão dizer? Eu trabalho no mesmo lugar que você. Eu conheço essas pessoas.

— Então entende por que eu quero esperar.

— Esperar o quê?

A pergunta ficou entre eles.

Augusto abriu a boca.

Fechou.

Heloísa assentiu devagar.

— Exatamente.

— Não existe uma data mágica.

— Então pode ser para sempre.

— Não.

— Como eu sei?

— Porque eu estou te dizendo.

— Você também me disse “por enquanto” há quatro meses.

Augusto sentou.

— O que mudou?

Heloísa riu, cansada.

— Eu.

Ele ficou quieto.

— No começo parecia nosso segredo — continuou ela. — Era até divertido. Nós dois contra o mundo. Agora não parece nosso. Parece seu.

— Isso é injusto.

— Talvez.

— Você aceitou.

— Eu sei!

Heloísa bateu a mão na mesa e imediatamente baixou a voz.

— Eu sei que aceitei. Eu estava apaixonada, Augusto. Nós tínhamos acabado de decidir casar. Você podia ter me pedido para atravessar a cidade descalça e provavelmente eu teria perguntado qual caminho.

— Não fala como se eu tivesse te convencido a fazer alguma coisa.

— Eu não estou falando isso.

— Parece.

— Estou dizendo que eu não entendi o preço.

Augusto olhou para ela.

— E qual é o preço?

Heloísa sentiu os olhos arderem.

Odiou.

Não queria chorar.

— Hoje eu disse para minha mãe que estou sozinha.

A expressão dele mudou.

— Heloísa...

— Eu escrevi e fiquei olhando para aquilo. “Continuo sozinha.” E depois fui para uma audiência enfrentar meu marido como se você fosse só um colega. Aí uma mulher te convida para almoçar porque, claro, ela acha que você está solteiro. E eu não posso ficar com raiva dela. Não posso dizer nada. Porque foi isso que nós contamos para o mundo.

Augusto estendeu a mão.

Ela recuou.

— Não.

Ele parou.

— Eu não quero carinho para encerrar a conversa.

— Não era para encerrar.

— Então responde.

— O quê?

— Por que você ainda quer esconder?

Augusto respirou fundo.

— Porque eu vi o que acontece quando vida pessoal entra em processo. Já vi advogado ser acusado de ter informação privilegiada por muito menos. Já vi promotor ser afastado de caso por aparência de conflito. Eu não quero que tudo o que você conquistar vire “é porque ela é mulher do promotor”. E não quero que qualquer decisão minha vire “é porque a esposa dele conhece alguém da defesa”.

Heloísa ficou quieta.

Era uma resposta melhor do que “por enquanto”.

E, justamente por isso, mais difícil de combater.

— Você acha que está me protegendo.

— Estou tentando proteger nós dois.

— E se eu disser que isso está me machucando mais do que a fofoca machucaria?

Augusto não respondeu imediatamente.

Heloísa percebeu.

— É isso que você não entende.

— Eu estou tentando.

— Não parece.

— Então me ajuda.

Ela fechou os olhos.

— Eu quero contar para meus pais.

Augusto ficou rígido.

— Agora?

— Em breve.

— Eles conseguem guardar segredo?

Heloísa abriu os olhos.

— Você está falando sério?

— É uma pergunta legítima.

— São meus pais.

— Justamente.

— Sua mãe pode guardar.

— Minha mãe vai querer fazer jantar, chamar parentes e anunciar no jornal.

Heloísa quase riu.

Quase.

— Eu não aguento mais mentir para eles.

Augusto olhou para as mãos.

— Me dá um tempo.

— Quanto?

— Heloísa...

— Uma semana? Um mês? Seis meses?

— Não sei.

Ela levantou.

— Então não me pede tempo sem saber quanto.

— Não decide isso sozinha.

Heloísa virou.

— Eu não vou decidir nosso casamento sozinha.

— Foi o que pareceu.

— Eu disse que quero contar para os meus pais. Não que vou fazer amanhã sem falar com você.

— Certo.

— Mas eu não vou continuar assim indefinidamente.

Augusto também se levantou.

— Eu entendi.

— Entendeu mesmo?

— Sim.

O silêncio seguinte não resolveu nada.

Mas pelo menos, pela primeira vez, o problema tinha sido dito inteiro.

• • •

A massa esfriou.

Eles comeram mesmo assim.

Não brigaram durante o jantar.

Também não conversaram muito.

Mais tarde, Heloísa foi tomar banho.

Quando voltou, encontrou Augusto sentado na cama, olhando uma fotografia no celular.

Era do casamento.

Jennifer tinha tirado.

Heloísa estava rindo de alguma coisa que Michael dissera fora do enquadramento. Augusto olhava para ela, não para a câmera.

Naquele dia, nenhum dos dois parecera ter dúvida.

Heloísa sentou ao lado dele.

— Por que está vendo isso?

— Não sei.

Ela olhou a fotografia.

— Eu estava feliz.

Augusto virou.

— Estava?

A pergunta doeu.

— Muito.

— Então por que fala como se...

— Eu não estou dizendo que me arrependo de casar com você.

— Ainda.

Heloísa franziu a testa.

— Que tipo de frase é essa?

Augusto bloqueou o celular.

— Você está dizendo que não sabia o preço. Que aceitou porque estava apaixonada. Que faria qualquer coisa.

— Porque eu estava apaixonada.

— Estava?

Ela ficou imóvel.

— Você está realmente perguntando isso?

— Você falou no passado.

— Augusto.

Ele passou a mão pelo rosto.

— Esquece.

— Não. Agora não.

— Foi uma escolha ruim de palavra.

— Eu ainda amo você.

— Eu sei.

— Sabe?

— Sei.

Heloísa o encarou.

A conversa da cozinha ainda estava entre eles.

Mas havia outra coisa agora.

Uma insegurança que ela não esperava ver em Augusto.

— Eu casei com você porque amava você — disse.

Ele olhou.

— E eu casei com você porque amava você.

— Amava?

Augusto percebeu.

Heloísa ergueu uma sobrancelha.

Ele soltou uma risada.

A primeira verdadeira do dia.

— Mereci.

— Muito.

Ela sorriu.

Augusto tocou a mão dela.

Dessa vez, Heloísa deixou.

— Ainda amo — disse ele.

— Melhor.

Ele entrelaçou os dedos.

Parou.

Olhou para a mão dela.

Sem aliança.

O sorriso desapareceu.

— Você vai colocar?

Heloísa acompanhou o olhar.

A aliança ainda estava na bolsa.

— Amanhã.

— Por quê amanhã?

Ela puxou a mão devagar.

— Porque hoje eu passei o dia inteiro tirando e colocando um casamento conforme o lugar em que eu estava. Estou cansada.

Augusto não insistiu.

Heloísa deitou.

Ele apagou a luz.

Na escuridão, Augusto aproximou-se e passou o braço por sua cintura.

Ela não recusou.

Mas também não se virou.

• • •

Na manhã seguinte, o telefone de Heloísa tocou antes do despertador.

Número desconhecido.

Ela ignorou.

Tocou novamente.

Augusto se mexeu.

— Quem é?

— Não sei.

Na terceira vez, Heloísa atendeu.

— Alô?

Silêncio.

Depois uma voz masculina.

— Você ainda demora três ligações para atender número que não conhece.

Heloísa ficou imóvel.

O quarto pareceu desaparecer.

Augusto abriu os olhos.

— Quem é?

Ela não respondeu.

Do outro lado da linha, o homem soltou uma respiração curta.

— Oi, Helô.

Ninguém a chamava assim daquele jeito havia anos.

Heloísa sentou na cama.

— Como conseguiu meu número?

Augusto ficou completamente acordado.

A voz respondeu:

— Não foi difícil.

— O que você quer?

— Conversar.

— Nós não temos nada para conversar.

— Temos mais do que você gostaria.

Heloísa apertou o telefone.

Augusto observava cada mudança em seu rosto.

— Não me liga de novo.

— Heloísa...

Ela desligou.

O silêncio no quarto ficou pesado.

Augusto sentou.

— Quem era?

Heloísa olhou para a tela apagada.

Um passado que ela tinha enterrado muito antes de conhecer Augusto acabara de encontrar o número dela.

— Ninguém.

A resposta saiu rápido demais.

Augusto percebeu.

— Heloísa.

Ela se levantou.

— Eu preciso me arrumar.

— Quem era?

Heloísa caminhou até o banheiro.

Parou na porta.

Por um segundo, pensou em contar.

Não contou.

— Uma pessoa que eu conheci há muito tempo.

— Quem?

Ela apertou os dedos em torno do celular.

— Gabriel.

O nome não significou nada para Augusto.

Ainda.

— Gabriel quem?

Heloísa demorou.

— Ferraz.

Augusto esperou.

Ela entrou no banheiro e fechou a porta.

Do lado de fora, ele permaneceu sentado na cama.

Do lado de dentro, Heloísa apoiou as mãos na pia e encarou o próprio reflexo.

A discussão sobre esconder o casamento parecia enorme na noite anterior.

Naquela manhã, um segredo muito mais antigo acabara de bater à porta.

E, pela primeira vez desde que dissera “sim” a Augusto, Heloísa se perguntou quanto de um casamento podia sobreviver quando duas pessoas começavam a descobrir que amor não era a única coisa que tinham levado para dentro dele.