CAPÍTULO 2
CORTA
Maya perdeu os cem reais antes das oito da manhã do dia seguinte.
A fotografia do elenco tinha sido publicada às sete e doze no perfil oficial da série.
Às sete e vinte e seis, alguém já havia recortado todos os outros atores.
Às sete e trinta e nove, a imagem de Maya e Vitor sozinhos tinha ultrapassado vinte mil curtidas numa conta de fãs.
Às sete e cinquenta e três, Clara mandou a captura de tela.
Maya estava sentada diante do espelho do camarim enquanto uma cabeleireira separava as mechas loiras ao redor de seu rosto. Leu a mensagem, fechou os olhos por dois segundos e abriu a conversa com Vitor.
Você me deve cem reais.
A resposta veio quase imediatamente.
Contestável.
Ela digitou:
Temos um acordo documentado por testemunhas.
Não tinha testemunha nenhuma.
Vitor respondeu:
Minha advogada vai entrar em contato.
Maya:
Sua advogada gosta mais de mim.
Três pontinhos apareceram.
Traição institucional.
Ela sorriu para o telefone.
— É ele?
Maya levantou os olhos para o espelho.
Lívia, responsável por seu cabelo desde a segunda temporada, fingia concentrar-se numa mecha.
— Quem?
— Não sei. Você que está sorrindo.
— Posso sorrir sem um homem envolvido.
— Pode.
— Obrigada.
— Só não costuma sorrir para o celular às oito da manhã.
Maya bloqueou a tela.
— Vocês são muito curiosos.
— Nós trabalhamos doze horas por dia num lugar onde metade das paredes não tem fundo. Precisamos de entretenimento.
— Assistam à série.
Lívia riu.
Maya voltou a olhar para o próprio reflexo.
A noite anterior não tinha sido ruim.
Também não tinha sido boa.
Depois da fotografia, ela e Vitor haviam saído do estúdio praticamente juntos, como faziam tantas vezes. No estacionamento, porém, ele se limitara a dar um beijo rápido em sua testa, dizer que a veria no dia seguinte e entrar no próprio carro.
Nenhuma menção à frase na sala de leitura.
Quarenta ainda está longe.
Maya também não tocara no assunto.
Era uma habilidade que os dois tinham aperfeiçoado: chegar perto de um assunto perigoso e, depois, agir como se não houvesse nada ali.
Funcionava.
Na maior parte do tempo.
O celular vibrou outra vez.
Vitor:
Café?
Ela respondeu:
Já tomei.
Mentira.
Três segundos depois:
Mentira.
Maya encarou a palavra.
Depois digitou:
Vai trabalhar, Dumont.
A porta abriu sem batida.
Vitor entrou carregando um café.
Lívia soltou uma gargalhada.
— Vocês são ridículos.
— Bom dia para você também — ele respondeu.
Maya olhou para o copo.
— Eu falei que já tomei.
— E eu falei que você estava mentindo.
Ele colocou o café diante dela.
— Como você sabe?
Vitor olhou para a bancada.
O copo que normalmente estaria ali não estava.
— Sete anos.
A resposta foi simples.
Maya segurou o café.
— Continua me devendo cem.
— Você é muito apegada a dinheiro para uma mulher que ganha o que ganha.
— Não é pelo dinheiro. É pelo princípio.
— Você apostou contra a sanidade do nosso fandom. Isso é manipulação de mercado.
— E ganhei.
Vitor apoiou uma mão no encosto da cadeira dela.
— Tecnicamente, eles não cortaram todo mundo.
Ele mostrou o celular.
Na montagem, ainda aparecia metade do ombro de outro ator.
Maya olhou.
Depois para ele.
— Saia do meu camarim.
— Ditadora.
— Caloteiro.
Vitor sorriu.
Aquela era a versão deles que Maya conhecia melhor.
A leve.
A segura.
A que não precisava ser examinada.
Ele ia sair quando Clara apareceu à porta.
A assessora de Maya tinha pouco mais de trinta anos, dois celulares, uma bolsa enorme e a expressão de quem já resolvera cinco crises antes do café da manhã.
— Ótimo. Os dois estão aqui.
Maya desconfiou imediatamente.
— Nunca é bom quando você começa assim.
— Não é ruim.
Vitor se encostou à porta.
— O que aconteceu?
Clara entrou e fechou a porta atrás de si.
— A produção quer gravar conteúdo de divulgação hoje no intervalo.
Maya continuou tomando café.
— Tudo bem.
— Com vocês dois.
Ela parou.
Vitor cruzou os braços.
— Que conteúdo?
— Perguntas rápidas. Bastidores. Química do elenco. Essas coisas.
— “Química do elenco” — Maya repetiu.
Clara conhecia aquele tom.
— Eu já disse que nada de pergunta pessoal invasiva.
— E eles disseram?
— Que concordam.
Vitor soltou uma risada curta.
— Até alguém perguntar se a gente já se beijou fora da série.
Clara olhou para ele.
— Se perguntarem, eu interrompo.
Maya passou o polegar pela borda do copo.
Aquilo não era novidade.
Entrevistas juntos faziam parte do trabalho desde a primeira temporada. Na época, as perguntas eram sobre preparação, personagens, cenas favoritas. Depois começaram a perguntar sobre a amizade.
Então sobre a química.
Depois sobre namoro.
Depois sobre casamento.
A progressão seria engraçada se não fosse tão cansativa.
— Quanto tempo? — Maya perguntou.
— Quinze minutos.
— Cinco.
— Maya.
— Dez.
Clara suspirou.
— Dez.
— Sem ler comentário de fã.
— Vou pedir.
— Sem “quem conhece melhor quem”.
Vitor interferiu:
— Essa eu gosto.
Maya virou-se para ele.
— Porque você trapaceia.
— Eu conheço você.
— Você responde coisas que ninguém deveria saber.
— Isso se chama vencer.
Clara apontou para Vitor.
— Você não ajuda.
— Nunca aleguei ajudar.
Uma assistente chamou Vitor do corredor.
Ele se afastou da porta.
— Cena em cinco.
Antes de sair, olhou para Maya.
— Dez minutos de entrevista. Você sobrevive.
— Se não sobreviver, a culpa é sua.
— Normal.
Ele desapareceu.
Clara esperou alguns segundos.
— Vocês estão bem?
Maya a encarou pelo espelho.
Clara era uma das poucas pessoas que conheciam parte da verdade. Não tudo. Maya nunca tinha sentado e contado a história do começo ao fim. Mas Clara sabia que, durante a segunda temporada, amizade deixara de ser uma palavra suficiente.
Também sabia quando terminara.
— Estamos — Maya respondeu.
Clara sustentou seu olhar por um momento.
— Certo.
Não insistiu.
Maya agradeceu silenciosamente.
***
A primeira metade do dia foi tomada por uma sequência de cenas no apartamento de Catarina e Tomás.
Nada grandioso.
Café da manhã.
Uma discussão sobre trabalho.
Uma cena na varanda.
Era justamente o tipo de material que exigia mais naturalidade dos dois, porque não havia gritos, lágrimas ou grandes acontecimentos atrás dos quais se esconder.
Catarina estava sentada na bancada da cozinha enquanto Tomás cortava uma fruta.
— Você está fazendo errado — Maya disse, já em personagem.
Vitor não levantou os olhos.
— Existe maneira errada de cortar morango?
— Essa.
— Muito esclarecedor.
Maya pegou um pedaço do prato.
— Está enorme.
— Você vai sobreviver.
— Essa é sua solução para tudo?
— Até agora funcionou.
Ela mastigou.
Vitor estendeu a mão e limpou com o polegar alguma coisa do canto da boca dela.
Maya ficou imóvel por uma fração de segundo.
A ação não estava no roteiro.
Mas era pequena.
Natural.
Perfeita para Tomás e Catarina.
Ela continuou.
— Você acabou de colocar sua mão na minha boca?
— Dramática.
— Anti-higiênico.
— Você me beijou há dez minutos.
— Situações diferentes.
Vitor sorriu.
— Corta!
O diretor levantou-se atrás do monitor.
— Ótimo. Isso fica.
Maya desceu da bancada.
— O quê fica?
— O morango. A mão. Tudo.
Vitor pegou outro pedaço.
— Minha contribuição artística.
Maya deu um tapa na mão dele.
— Pare de comer a continuidade.
— Temos mais.
Uma pessoa da equipe apareceu imediatamente com outro recipiente cheio de morangos.
Vitor olhou para Maya.
— Viu?
— Eu odeio trabalhar com você.
— Quarta temporada dizendo isso.
A maquiadora aproximou-se para retocar Maya.
Enquanto esperava, ela percebeu duas pessoas da equipe de conteúdo ao lado do monitor. Uma delas tinha gravado parte da cena num celular.
Maya apontou.
— Isso vai para a internet?
A mulher abaixou o aparelho.
— Só se vocês aprovarem.
— Não coloca o pedaço depois do corta.
Ela respondeu sem pensar.
A mulher assentiu.
— Claro.
Vitor, ao lado dela, ficou quieto.
Maya percebeu que ele havia entendido exatamente o que ela queria dizer.
Na tela, qualquer gesto podia pertencer a Catarina e Tomás.
Depois do “corta”, Maya queria continuar sendo Maya.
***
A entrevista promocional foi montada num canto do estúdio durante o almoço.
Duas cadeiras.
Um fundo com o logotipo da série.
Uma câmera.
Iluminação simples.
Maya sentou primeiro.
Vitor puxou a cadeira ao lado.
— Mais perto — pediu o produtor de conteúdo.
Vitor arrastou a cadeira alguns centímetros.
— Mais.
Maya olhou para ele.
— Quer sentar no meu colo logo?
Alguém atrás da câmera riu.
Vitor respondeu:
— Não me tenta.
Maya lançou um olhar mortal.
— Isso não vai para o vídeo.
— Ainda nem começou — disse o produtor, rindo.
— Melhor ainda.
Vitor aproximou a cadeira.
Os joelhos dos dois quase se tocavam.
Clara estava atrás da câmera, braços cruzados.
Maya viu.
Aquilo a tranquilizou um pouco.
— Vamos fazer perguntas rápidas — explicou o entrevistador. — Coisas da temporada, bastidores, amizade de vocês. Bem leve.
— Estamos gravando? — Vitor perguntou.
— Agora sim.
Uma luz vermelha acendeu.
Maya mudou quase imperceptivelmente.
Não ficou falsa.
Nunca precisava ser.
Mas ficou consciente.
Do corpo.
Da postura.
Do que dizia.
Do que não dizia.
— Primeiro dia da quarta temporada — começou o entrevistador. — Como é voltar?
Vitor olhou para Maya.
— Ela já reclamou do café.
— Ele já roubou minha comida.
— Então tudo normal.
— Exatamente.
O entrevistador riu.
— O que mais mudou desde a primeira temporada?
Maya pensou.
— Acho que a confiança. No começo, todo mundo ainda estava descobrindo os personagens, o tom da série, como trabalhar junto. Agora existe uma intimidade entre o elenco e a equipe que facilita muito.
— E entre vocês?
A pergunta veio rápido.
Maya não mudou a expressão.
— Nós já éramos amigos antes.
— Melhores amigos — Vitor corrigiu.
Ela olhou para ele.
— Ele gosta de títulos.
— Trabalhei muito por esse.
A resposta fez a equipe rir.
Maya também.
Era verdade.
Talvez por isso doesse um pouco mais quando pessoas tratavam aquela amizade como uma etapa provisória antes de um romance.
Como se sete anos fossem uma sala de espera.
— E qual dos dois é mais parecido com o personagem?
— Nenhum — Maya respondeu.
— Ela — Vitor respondeu ao mesmo tempo.
Maya virou para ele.
— Como assim eu?
— Controladora.
— Catarina não é controladora.
— Obrigado por provar meu ponto.
Ela empurrou o ombro dele.
O entrevistador aproveitou.
— Isso é uma coisa que os fãs adoram. Vocês parecem esquecer que tem câmera.
Maya sentiu algo pequeno apertar no estômago.
Vitor respondeu antes.
— A gente esquece mesmo.
Ela olhou para ele.
— Às vezes.
— Depois de tanto tempo, é difícil ficar performando amizade.
A palavra ficou no ar.
Performando.
Maya sabia o que ele queria dizer.
A amizade era real.
Não precisava ser criada para divulgação.
Mas havia uma ironia cruel naquela frase.
Porque, em alguns momentos, eles precisavam justamente pensar em como a amizade real seria vista.
— Tem alguma coisa que vocês evitam fazer por causa da reação dos fãs? — perguntou o entrevistador.
Clara se mexeu atrás da câmera.
Maya poderia responder de forma neutra.
Poderia rir.
Vitor, porém, ficou em silêncio.
Então Maya respondeu:
— Acho que aprendemos a ter algumas coisas só nossas.
O ambiente ficou um pouco mais quieto.
— Como assim?
— Nem tudo precisa virar conteúdo — ela disse, ainda tranquila. — Às vezes a gente está almoçando. Às vezes está conversando. Às vezes está num aniversário. Não significa que precisa existir uma foto.
Vitor assentiu.
— E quando tem foto, também não significa que existe um código secreto nela.
O entrevistador sorriu.
— Então os fãs analisam demais?
Maya respirou.
— Acho que eles gostam muito da série. E isso é incrível. Só que uma coisa pode ser divertida para uma pessoa e, quando milhões fazem ao mesmo tempo, ficar... grande.
Vitor olhou para ela.
Dessa vez não era Tomás olhando Catarina.
Era ele.
— A maioria é muito respeitosa — ele acrescentou. — A gente sabe que vem de carinho. Só tentamos manter alguma vida fora disso.
Clara relaxou os braços.
A entrevista poderia ter terminado ali.
Deveria.
Mas o entrevistador olhou para a ficha seguinte.
— Já que estamos falando dessa química que todo mundo comenta... vocês já tiveram vontade de ficar juntos na vida real?
Maya não se mexeu.
Por dentro, alguma coisa caiu.
Não era a primeira vez que perguntavam.
Mas existia uma diferença entre responder a uma mentira e responder a uma pergunta cuja resposta verdadeira estava sentada ao seu lado.
Vitor soltou uma pequena risada.
— Você disse perguntas leves.
O entrevistador levantou as mãos.
— Culpa da internet.
— A internet não escreveu a ficha — Vitor respondeu.
Ainda sorria.
Mas Maya conhecia o sorriso.
Ele não estava achando graça.
Clara deu um passo à frente.
— Vamos para a próxima.
— Tudo bem — Maya disse.
Clara olhou para ela.
Maya sabia que podia parar.
Não queria.
Não queria que sua recusa se transformasse em outra prova.
— Somos amigos há muito tempo — Maya continuou. — Acho que as pessoas veem o que acontece na série e misturam um pouco as coisas.
— Então nunca aconteceu nada?
Silêncio.
Um segundo.
Dois.
Vitor inclinou-se para a frente.
— Próxima pergunta.
Dessa vez não havia sorriso.
O entrevistador entendeu.
— Claro.
Maya manteve os olhos na câmera.
Sentia Vitor ao lado.
Próxima pergunta.
Cena favorita.
Momento mais engraçado.
Quem esquece mais falas.
A entrevista continuou.
Eles riram.
Brincaram.
Vitor contou uma história da primeira temporada.
Maya o interrompeu três vezes porque ele exagerava detalhes.
Quando terminou, qualquer pessoa que assistisse veria dois melhores amigos confortáveis diante de uma câmera.
Assim que a luz vermelha apagou, Maya levantou.
— Preciso trocar de roupa.
Vitor também se levantou.
— Maya.
— Depois.
Ela não estava brava com ele.
Talvez estivesse justamente tentando não ficar.
***
Maya fechou a porta do camarim e encostou as costas nela.
Ficou assim alguns segundos.
Era ridículo.
Uma pergunta.
Só isso.
Já tinha ouvido pior.
Muito pior.
Mas o problema não era a pergunta.
Era o silêncio de dois segundos antes de Vitor interromper.
Dois segundos em que ela teve a impressão de que todos na sala conseguiriam ver.
A porta recebeu duas batidas.
Maya não respondeu.
— Eu sei que você está aí.
Vitor.
— Impressionante.
— Posso entrar?
Ela olhou para a maçaneta.
Aquilo, por si só, dizia muito.
Vitor quase nunca perguntava.
— Pode.
Ele entrou e fechou a porta.
Maya estava diante da bancada, tirando um brinco.
— Você está bem?
— Estou.
— Maya.
— O quê?
— Não faz isso.
Ela deixou o brinco sobre a mesa.
— Isso o quê?
— Responder como se eu fosse a imprensa.
A frase acertou um lugar desconfortável.
Maya virou.
— Eu estou bem. Só achei desnecessário.
— Eu também.
— A gente sabia que iam perguntar.
— Não daquele jeito.
— Existe um jeito bom?
Vitor ficou em silêncio.
Maya retirou o outro brinco.
— É exatamente disso que eu estava falando ontem.
— Eu sei.
— Não, Vitor. Acho que não sabe.
Ele cruzou os braços.
— Então explica.
Maya soltou o ar.
Não queria discutir.
Principalmente não ali.
— Eles perguntam. A gente não responde. Isso vira notícia. Se responde, analisam cada palavra. Se você olha para mim, significa uma coisa. Se não olha, significa outra. Se a gente sai junto, estamos namorando. Se passa uma semana sem aparecer junto, brigamos.
— Eu sei como funciona.
— Então por que trouxe aquilo ontem?
Vitor ficou imóvel.
Agora estavam falando daquilo.
Finalmente.
— Porque eu lembrei.
— Eu também lembrei. Não significa que precisava dizer.
— Por quê?
Maya riu sem humor.
— Sério?
— Sim.
— Porque a gente levou dois anos para colocar as coisas no lugar.
— Colocou?
A pergunta saiu baixa.
Maya encarou-o.
— O que isso significa?
— Você sabe.
— Não. Quero que diga.
Vitor passou uma mão pelo cabelo.
— Nada.
Maya soltou uma risada curta.
— Claro.
— Não começa.
— Você entra aqui, pergunta se está tudo no lugar e depois diz “nada”.
— Porque estamos no meio de um dia de gravação.
— Foi você que veio atrás de mim.
— Porque você saiu daquela entrevista como se eu tivesse feito alguma coisa.
— Eu falei que não estou brava com você.
— Você não precisa falar.
Maya ficou quieta.
Ele a conhecia.
Esse era sempre o problema.
Vitor aproximou-se um pouco.
— Eu não devia ter falado aquilo ontem.
— Não.
— Tudo bem. Desculpa.
Ela assentiu.
Poderia acabar ali.
Era o mais inteligente.
Só que Vitor não foi embora.
Maya também não desviou.
— Mas eu realmente lembrei — ele disse.
Ela fechou os olhos por um instante.
— Vitor...
— Não estou pedindo nada.
— Então para quê?
— Não sei.
Aquilo era raro.
Vitor quase sempre tinha resposta.
Mesmo quando inventava uma.
Maya encostou na bancada.
Ele continuou:
— Eu li aquela cena e lembrei daquela noite. Foi isso. Aconteceu na minha cabeça antes que eu pudesse impedir.
— Na minha também.
Vitor levantou os olhos.
Maya percebeu tarde demais que tinha admitido.
O silêncio mudou.
— Certo — ele disse.
— Não transforma isso em alguma coisa.
— Eu não estou transformando.
— Está fazendo aquela cara.
— Qual cara?
Maya quase riu.
Quase.
— Esquece.
Vitor aproximou-se mais um passo.
Não o suficiente para tocá-la.
O suficiente para Maya perceber.
— Você sabe que eu nunca me arrependi, né?
Ela ficou completamente imóvel.
A porta abriu.
— Maya, figurino precisa...
A assistente parou.
Vitor se afastou imediatamente.
Maya pegou o roteiro da bancada sem necessidade.
— Pode falar.
— Desculpa. Eu... a próxima troca está pronta.
— Já vou.
A assistente assentiu e desapareceu.
A porta ficou aberta.
O momento também.
Vitor colocou as mãos nos bolsos.
— A gente conversa depois.
Maya olhou para ele.
— Talvez não devesse.
Ele sustentou seu olhar.
Não respondeu.
Saiu.
Maya permaneceu sozinha.
Você sabe que eu nunca me arrependi, né?
Ela fechou os olhos.
O problema era que sabia.
Talvez sempre tivesse sabido.
***
A última cena do dia exigia chuva.
Não chuva de verdade.
Uma estrutura enorme instalada acima de uma rua cenográfica despejava água diante das câmeras enquanto a equipe permanecia protegida sob capas, tendas e plástico.
Catarina e Tomás discutiriam na calçada.
A cena pertencia ao terceiro episódio.
Maya estava molhada pela quarta vez.
Vitor pela quinta.
— Eu não sinto meus pés — ela disse enquanto esperavam o ajuste da câmera.
— Quer meus sapatos?
— Quero ir para casa.
— Também.
Um assistente apareceu com uma toalha e colocou sobre os ombros dela.
Vitor estendeu a mão e puxou uma ponta, cobrindo melhor o braço de Maya.
O gesto foi automático.
Ela olhou.
Ele retirou a mão.
Não havia ninguém filmando aquele momento.
Pelo menos Maya esperava que não.
— Posições! — gritou o diretor.
A toalha foi retirada.
Maya voltou para a marca.
Vitor ficou a alguns metros.
A chuva artificial começou.
— Som!
— Gravando!
— Câmera!
— Gravando!
A claquete bateu.
— Ação!
Maya deixou de ser Maya.
— Você foi embora!
Tomás atravessou a chuva.
— Eu voltei.
— Quando foi conveniente para você.
— Não foi isso que aconteceu.
— Foi exatamente isso!
Vitor parou diante dela.
Água escorria pelo rosto dos dois.
— Eu achei que ir embora era a única maneira de não destruir o que ainda existia entre nós.
Maya conhecia a fala.
Tinha lido.
Ensaiado.
Sabia a resposta.
Mas naquele instante ela ouviu outra coisa.
Não Tomás.
Vitor.
Eu achei que ir embora era a única maneira de não destruir o que ainda existia entre nós.
Seu coração bateu errado.
A próxima fala demorou meio segundo além do previsto.
— E quem disse que você tinha o direito de decidir isso sozinho?
Vitor olhou para ela.
Algo mudou no rosto dele.
Pequeno.
Perigoso.
— Eu estava com medo.
Maya respirou.
A fala seguinte era de Catarina.
— De quê?
Vitor deveria responder imediatamente.
Não respondeu.
Um segundo.
A chuva caiu entre eles.
Então:
— De descobrir que ficar seria pior.
Maya sentiu um arrepio que não tinha nada a ver com a água gelada.
Era a fala de Tomás.
Estava no roteiro.
Cada palavra.
Mesmo assim, parecia outra conversa.
— Então você fugiu.
— Eu tentei proteger nós dois.
Maya engoliu em seco.
— Talvez eu nunca tenha pedido para ser protegida.
Silêncio.
O roteiro indicava que Tomás se aproximava.
Vitor se aproximou.
Maya deveria permanecer parada.
Permaneceu.
Ele ergueu a mão.
Tocou seu rosto.
O beijo aconteceria três falas depois.
Maya sabia.
Vitor sabia.
A câmera sabia.
Todo mundo sabia.
Só que, quando ele olhou para ela, Maya teve uma sensação absurda de que estavam outra vez naquela cozinha de dois anos atrás.
Sem marca.
Sem personagem.
Sem ninguém assistindo.
— Eu ainda estou aqui — Vitor disse.
Tomás.
Era Tomás.
Maya repetiu isso mentalmente.
A resposta de Catarina:
— Por quanto tempo?
— Pelo tempo que você deixar.
E então ele a beijou.
A chuva continuou.
Maya segurou a camisa dele.
Vitor colocou a mão em sua cintura.
O beijo deveria durar quatro segundos.
Durou exatamente quatro.
Eles sabiam fazer isso.
Sabiam ser precisos.
Sabiam separar.
Ou tinham sabido.
— Corta!
Vitor se afastou.
A mão dele deixou a cintura dela.
Maya abriu os olhos.
A equipe começou a se mover.
Alguém correu com toalhas.
O diretor falava alguma coisa sobre a câmera dois.
Maya mal ouviu.
Vitor ainda estava diante dela.
Os dois molhados.
Respirando um pouco mais rápido do que a cena justificava.
— Ficou ótimo! — o diretor gritou. — Vamos mais uma por segurança!
Maya desviou os olhos.
Uma toalha caiu sobre seus ombros.
Vitor recebeu outra.
Ele aproximou-se para dizer alguma coisa.
— Maya...
— Não.
Ele parou.
Ela não falou com raiva.
Falou baixo.
Quase um pedido.
Vitor assentiu.
A equipe reiniciou a chuva.
Eles voltaram para suas marcas.
De novo.
Ação.
Discussão.
Toque.
Beijo.
Corta.
Na terceira tomada, Maya já conseguia esconder tudo novamente.
Quando terminaram, eram quase onze da noite.
***
O estacionamento estava silencioso.
Maya caminhava em direção ao carro com o cabelo ainda úmido e uma mochila no ombro quando ouviu passos atrás.
Não precisou virar.
— Você está me seguindo?
— Meu carro fica para esse lado.
— Há quatro temporadas?
— Coincidência.
Ela apertou o controle.
As luzes do carro piscaram.
Vitor continuou ao lado dela.
Nenhum dos dois mencionou o camarim.
Nem a cena.
Chegaram ao carro de Maya.
Ela abriu a porta.
— Boa noite.
— Maya.
Ela parou.
Vitor estava a dois passos.
Cansado.
Cabelo ainda úmido.
Sem Tomás.
Sem luz bonita.
Sem câmera.
Só Vitor.
— O quê?
Ele pareceu reconsiderar o que diria.
— Chegou uma coisa para você.
Maya franziu a testa.
— O quê?
Ele levantou o celular.
— A produção mandou o corte preliminar da entrevista para aprovação.
Ela soltou o ar.
— Amanhã.
— Foi o que eu respondi.
Maya assentiu.
— Obrigada.
— E mandei tirar a pergunta.
Ela olhou para ele.
— Vitor...
— Não precisa agradecer.
— Eu ia dizer que você não precisava fazer isso.
— Precisava.
— Por quê?
Ele guardou o telefone.
— Porque eu estava lá.
Maya ficou quieta.
Vitor deu um passo para trás.
— Vai para casa. Você está exausta.
— Você também.
— Eu sou mais resistente.
— Você reclamou dos pés às nove.
— Calúnia.
Maya sorriu.
Pequeno.
Vitor viu.
— Melhor.
Ela abriu a porta do carro.
Antes de entrar, perguntou:
— Você realmente não se arrepende?
A pergunta saiu antes que pudesse ser impedida.
Vitor parou.
Dessa vez, não havia porta abrindo.
Assistente entrando.
Diretor chamando.
Câmera esperando.
Nada.
Só os dois.
Ele demorou alguns segundos.
— Não.
Maya apertou os dedos em torno da chave.
— Nem de ter acontecido?
— Não.
— Nem de ter acabado?
A expressão dele mudou.
— Isso é outra pergunta.
Maya sustentou o olhar.
— Então responde.
Vitor aproximou-se um passo.
— Hoje não.
Ela quase se irritou.
— Por quê?
— Porque você está cansada. Eu estou cansado. E amanhã a gente precisa estar aqui às seis.
— Isso nunca impediu você de falar.
— Essa conversa não merece acontecer num estacionamento às onze da noite.
Maya não esperava aquela resposta.
Ele continuou:
— Quando você realmente quiser saber, pergunta de novo.
Vitor tocou de leve o teto do carro.
— Boa noite, Marchetti.
Virou-se.
Maya ficou olhando enquanto ele caminhava até o próprio carro.
— Vitor.
Ele parou e olhou por cima do ombro.
Ela poderia perguntar.
Ali.
Agora.
Não perguntou.
— Você ainda me deve cem reais.
Um sorriso apareceu no rosto dele.
— Boa noite, Maya.
Ela entrou no carro.
Só quando fechou a porta percebeu que estava sorrindo também.
O telefone vibrou dentro da bolsa.
Maya pegou.
Uma notificação.
A conta oficial da série tinha publicado um vídeo curto dos bastidores.
Ela abriu.
Sete segundos.
Catarina e Tomás na cozinha.
Vitor limpando o canto da boca dela com o polegar.
O vídeo terminava antes do “corta”.
A legenda:
“Eles voltaram. E nós também.”
Maya olhou o número de comentários subir diante de seus olhos.
Duzentos.
Quatrocentos.
Setecentos.
Atualizou sem querer.
Mais de mil.
Bloqueou o telefone.
Do outro lado do estacionamento, Vitor entrou no carro.
Por alguns segundos, Maya ficou olhando para ele através do para-brisa.
Então ligou o motor.
Na internet, milhares de pessoas discutiam aqueles sete segundos.
O toque.
O olhar.
O sorriso.
Tentavam decidir o que era atuação e o que era verdade.
Maya saiu do estacionamento pensando que talvez o pior fosse que, naquela noite, ela também já não tinha tanta certeza.