CAPÍTULO 1
AÇÃO
Às seis e quarenta e três da manhã, o estúdio ainda não parecia um lugar onde histórias de amor aconteciam.
Parecia um galpão grande demais, frio demais e acordado cedo demais.
Cabos pretos atravessavam o chão como raízes, caixas de equipamento ocupavam os cantos e duas pessoas da iluminação discutiam, em voz baixa, sobre a posição de um refletor que ainda nem estava ligado. No cenário principal, uma sala de estar elegante esperava imóvel sob a luz branca de serviço: sofá impecável, livros escolhidos um a um pela direção de arte, flores que seriam substituídas antes de murcharem e fotografias de uma família que não existia.
Daqui a algumas horas, milhões de pessoas acreditariam naquele apartamento.
Naquela manhã, Maya Marchetti só conseguia pensar que alguém tinha colocado o café longe demais.
Ela atravessou o estúdio com um copo de papel numa mão e o roteiro dobrado na outra. Usava calça larga de moletom, tênis, uma camiseta branca e um casaco grande que não combinava com absolutamente nada. O cabelo, castanho com mechas loiras, estava preso num coque frouxo que provavelmente seria desfeito pela equipe de cabelo em menos de dez minutos.
Maya não se importava.
Ainda não eram sete da manhã. Ninguém tinha o direito de esperar elegância dela naquele horário.
— Bom dia, Maya.
Ela ergueu o copo para um assistente de produção que passou correndo.
— Isso é uma afirmação ou um desejo?
Ele riu sem diminuir o passo.
Maya continuou andando.
O primeiro dia oficial de gravações da quarta temporada deveria ter alguma solenidade. Pelo menos era o que as redes sociais da produtora faziam parecer. Na noite anterior, o perfil oficial da série tinha publicado uma fotografia do roteiro com a legenda: “Estamos de volta.”
Em menos de quinze minutos, o nome da produção estava entre os assuntos mais comentados.
Em vinte, alguém já tinha perguntado onde estava Vitor.
Em vinte e cinco, alguém perguntou onde estava Maya.
Em trinta, os fãs concluíram que o fato de nenhum dos dois ter compartilhado a publicação significava alguma coisa.
Maya soube disso porque sua assessora lhe enviou uma captura de tela acompanhada de três pontos de interrogação.
Ela respondeu com uma figurinha e foi dormir.
A quarta temporada tinha começado antes mesmo de ela pisar no estúdio.
— Você está atrasada.
A voz veio de trás dela.
Maya nem se virou.
— Não estou.
— Está quatro minutos atrasada.
— Minha convocação é às sete.
— Para maquiagem. Eu estava esperando você às seis e quarenta.
Ela parou.
Virou-se devagar.
Vitor Dumont vinha em sua direção com dois cafés nas mãos, uma mochila pendurada em um ombro e o cabelo escuro ainda desorganizado. Vestia jeans, camiseta preta e uma jaqueta que Maya reconheceu imediatamente porque já a tinha roubado duas vezes e devolvido uma.
Ele estendeu um dos copos.
— Sem açúcar. Um pouco de leite.
Maya olhou para o café que já segurava.
Depois para o que ele oferecia.
— Eu já tenho.
Vitor olhou para o copo dela.
— Aquilo é café de produção.
— E?
— Você reclama dele há três temporadas.
— Pessoas mudam.
— Você não.
Ela tentou segurar o sorriso.
Não conseguiu.
Pegou o café dele e entregou o seu em troca.
— Você bebe.
— Eu trouxe o meu.
— Problema seu.
Vitor ficou com os dois copos por um segundo.
— Sete anos de amizade e é assim que você me trata.
— Sete anos e você ainda não aprendeu a não aparecer com dois cafés se não pretende ficar com um sobrando.
Ele bebeu do café que ela havia abandonado.
Fez uma careta imediata.
— Isso é horrível.
— Eu sei.
— Você ia beber isso?
— Não mais.
Vitor balançou a cabeça.
Maya começou a andar novamente, e ele acompanhou.
Era assim com eles.
Sem anúncio. Sem cerimônia.
Em algum momento, muitos anos antes, tinham aprendido a ocupar o espaço um do outro sem pedir licença.
Vitor sabia qual café ela tomava. Maya sabia que ele ficava irritado quando alguém falava com ele antes da primeira refeição. Ele carregava analgésicos porque ela sempre esquecia. Ela mantinha uma camisa dele no apartamento desde uma viagem de divulgação ocorrida dois anos antes e já nem lembrava por que nunca a devolvera.
Para os dois, aquilo era cotidiano.
Para a internet, seria material para quarenta vídeos, três teorias e provavelmente uma montagem com música triste.
Por isso nenhum dos dois tinha postado que estavam juntos naquela manhã.
— Você leu tudo? — Vitor perguntou.
Maya levantou o roteiro.
— Até o seis.
— Mentira.
— Por quê?
— Porque você me mandou uma mensagem à uma e dezessete dizendo “eles perderam completamente a cabeça”.
— E isso prova que eu estava lendo.
— Prova que você chegou ao quatro.
Maya estreitou os olhos.
— Você sabe exatamente em que episódio eu estava pela mensagem?
— Sei exatamente em que cena você estava.
— Isso é preocupante.
— Você escreveu em letras maiúsculas.
Ela riu.
Chegaram ao corredor dos camarins. Havia cartazes novos nas portas, caixas abertas no chão e gente indo e vindo com cabides cobertos por capas plásticas.
Na porta de Maya, uma folha impressa dizia MAYA MARCHETTI — CATARINA.
Na seguinte, VITOR DUMONT — TOMÁS.
Maya apontou.
— Ainda somos vizinhos.
— Pedi especificamente para me colocarem no outro prédio.
— E eles ignoraram?
— Disseram que não existe outro prédio.
— Amadores.
Vitor abriu a porta do camarim dela antes que Maya alcançasse a maçaneta.
Ela entrou sem comentar.
Ele entrou atrás.
— Por que você está entrando?
— Porque você tem comida.
— Você acabou de chegar.
— Exatamente. Ainda não teve tempo de comer tudo.
Maya deixou o roteiro sobre a bancada iluminada.
Seu camarim tinha mudado pouco desde a temporada anterior. Algumas fotografias tinham sido guardadas durante o intervalo entre as gravações e agora estavam novamente presas ao espelho: uma do elenco inteiro na primeira temporada, outra de Maya com a equipe de maquiagem, uma fotografia desfocada de Vitor dormindo numa cadeira com um roteiro sobre o rosto.
Ele parou diante dela.
— Você ainda tem isso?
— É uma obra de arte.
— Eu pareço morto.
— Esse é o charme.
Vitor tentou tirar a fotografia.
Maya bateu na mão dele.
— Nem pense.
— Você guarda provas comprometedoras minhas.
— Tenho muito piores.
— Eu também.
Os dois se olharam pelo espelho.
Por um instante, nenhum falou.
Foi breve.
Tão breve que qualquer outra pessoa talvez nem percebesse.
Maya percebeu.
Vitor também.
Havia coisas que eles tinham aprendido a não mencionar.
A segunda temporada era uma delas.
Não porque tivesse sido ruim.
Talvez esse fosse justamente o problema.
Durante alguns meses, dois anos antes, aquela facilidade que existia entre eles havia mudado de lugar. Um beijo acontecera. Depois outro. Depois uma noite. Depois tantas que contar teria tornado tudo mais sério do que os dois estavam preparados para admitir.
Nunca houve pedido de namoro.
Nunca houve anúncio.
Nunca houve uma conversa em que decidiram o que eram.
Houve apenas uma noite em que Maya disse que não conseguia mais fazer aquilo.
E Vitor, depois de um silêncio longo demais, respondeu que entendia.
De alguma maneira, sobreviveram.
Voltaram a ser Maya e Vitor.
Melhores amigos.
Só isso.
Quase sempre.
— Você está me encarando — ele disse.
Maya desviou os olhos para o roteiro.
— Estava pensando em jogar alguma coisa em você.
— Melhor.
Uma batida na porta interrompeu os dois.
— Maya? Cabelo e maquiagem.
— Estou indo.
Vitor pegou uma barra de cereal que estava sobre a mesa.
— Isso é meu.
— Era.
— Vitor.
Ele já estava na porta.
— Bem-vinda de volta, Marchetti.
Maya pegou uma almofada do sofá e jogou.
Ele fechou a porta a tempo.
A almofada bateu na madeira.
Do outro lado, Maya ouviu a risada dele.
E sorriu sozinha.
***
Às nove e vinte, o estúdio já tinha se transformado.
As luzes estavam acesas. O cenário não parecia mais um conjunto de paredes falsas. Havia câmeras posicionadas, microfones, figurantes aguardando instruções e uma pequena multidão de profissionais que sabia exatamente onde deveria estar.
Maya também já não parecia a mulher que chegara de moletom.
O cabelo estava solto em ondas cuidadosamente imperfeitas. A maquiagem era leve, mas construída para sobreviver a horas de iluminação. Catarina Valença usava uma calça de alfaiataria clara e uma blusa de seda.
Maya estava sentada no braço do sofá enquanto uma assistente ajustava discretamente o microfone preso sob sua roupa.
Vitor apareceu do outro lado do cenário vestido como Tomás.
Terno escuro. Camisa sem gravata. Relógio no pulso.
Maya olhou uma vez.
Depois outra.
Ele percebeu.
É claro que percebeu.
— O quê?
— Nada.
— Você fez uma cara.
— Que cara?
— Aquela.
— Muito específico.
Vitor aproximou-se.
— Estou bonito?
— Você quer mesmo começar a temporada assim?
— Só estou perguntando.
Maya fingiu analisá-lo.
— O figurino fez o possível.
— Inveja é uma coisa feia.
— Principalmente antes das dez da manhã.
O diretor surgiu com o roteiro enrolado na mão.
— Posso interromper o casamento de vocês?
Maya e Vitor responderam ao mesmo tempo:
— Não somos casados.
O diretor parou.
Olhou de um para o outro.
— Quatro temporadas e vocês ainda fazem isso.
— Isso o quê? — Maya perguntou.
— Respondem juntos.
Vitor deu de ombros.
— Ela me copia.
— Claro.
— Vamos ensaiar? — o diretor perguntou, já acostumado.
A primeira cena da temporada era simples.
Ou deveria ser.
Tomás chegava ao apartamento depois de uma viagem de trabalho. Catarina estava acordada esperando por ele. Não havia beijo previsto no início. Era uma cena cotidiana, construída justamente para mostrar que os personagens agora dividiam a vida.
O diretor explicou as marcações.
Vitor entraria.
Deixaria as chaves.
Maya estaria no sofá.
Duas falas.
Ele se aproximaria.
Beijo.
Depois seguiriam para a cozinha.
Nada que os dois não tivessem feito dezenas de vezes diante de uma câmera.
— Vamos marcar — disse o diretor.
Maya assumiu a posição.
Vitor saiu do cenário.
Um assistente bateu a claquete.
Ainda não estavam gravando.
Vitor entrou.
Maya levantou os olhos.
Ele deixou as chaves sobre o móvel.
— Você ainda está acordada?
— Você disse que chegaria às onze.
— O voo atrasou.
— Percebi.
Vitor caminhou até ela.
Maya deveria se levantar.
Levantou.
Ele colocou uma mão em sua cintura.
Ela apoiou uma das mãos no peito dele.
E então ambos pararam.
O diretor observava o monitor.
— O beijo é aqui.
— Eu sei — Vitor respondeu.
Maya ergueu uma sobrancelha.
— Então?
— Estou esperando você parar de pisar no meu pé.
Ela olhou para baixo.
Estava mesmo.
— Ah.
— Muito romântico.
— Você sobrevive.
— Não sei. Talvez precise de afastamento.
Maya deu um passo para trás.
— Quer que eu chame seu advogado?
— Meu advogado gosta de você.
— Todo mundo gosta de mim.
— Esse é o problema.
Ela olhou para ele.
A frase tinha saído leve.
Provavelmente era uma piada.
Vitor já estava olhando para o diretor.
— De novo?
Maya levou meio segundo a mais para responder.
— De novo.
Fizeram a marcação.
Depois outra.
Quando começaram a gravar, a brincadeira desapareceu.
Era uma das coisas que Maya mais admirava nele.
Vitor conseguia desligar o restante do mundo quando ouvia “ação”.
— Ação!
Tomás entrou.
Catarina estava no sofá.
Dessa vez não havia Maya pensando em café, em roteiro ou na mensagem que a assessora provavelmente já havia enviado.
Havia Catarina.
— Você ainda está acordada?
Maya levantou os olhos.
— Você disse que chegaria às onze.
— O voo atrasou.
— Percebi.
Vitor atravessou o cenário.
A câmera deslizou acompanhando-o.
Maya se levantou.
Ele parou diante dela.
A mão veio para sua cintura exatamente como ensaiado.
A dela encontrou o peito dele.
Vitor a beijou.
Não era o primeiro beijo deles.
Nem o décimo.
Nem perto disso.
Tinham se beijado diante de câmeras tantas vezes que Maya sabia exatamente como ele inclinava a cabeça para não bloquear seu rosto. Sabia onde colocar a mão para que a câmera pegasse o movimento. Sabia quanto tempo esperar antes de se afastar.
Beijar Vitor em cena era trabalho.
Tinha técnica.
Marca.
Luz.
Continuidade.
Só que o corpo não era uma máquina tão obediente quanto Maya gostaria.
Porque havia uma diferença entre saber que aquilo era atuação e esquecer que, em algum momento, aquele mesmo homem já a beijara numa cozinha escura às duas da manhã sem diretor, sem câmera e sem ninguém para gritar corta.
— Corta!
Vitor se afastou.
A mão permaneceu na cintura dela por um instante.
Um instante apenas.
Depois caiu.
— Bom — disse o diretor. — Mais uma para segurança.
Maya respirou.
— Claro.
Vitor olhou para ela.
Não perguntou nada.
Também era uma das coisas que ele sabia fazer.
Reconhecer quando ela não queria uma pergunta.
Repetiram a cena.
Depois uma terceira vez por causa do foco.
Na quarta, o diretor ficou satisfeito.
— Perfeito. Próxima.
A equipe imediatamente começou a se mover.
Maya saiu da marca e recebeu uma garrafa de água.
Vitor passou ao lado dela.
— Você está bem?
Ela abriu a garrafa.
— Estou.
— Certo.
Ele continuou andando.
Maya observou suas costas por dois segundos.
O problema de ter alguém que conhecia todas as suas versões era que mentir nunca funcionava completamente.
***
O almoço aconteceu quase às três da tarde.
Maya estava sentada numa mesa comprida com parte do elenco quando seu celular vibrou pela décima vez.
Ela ignorou.
Vibrou novamente.
— Se for sua mãe, atende — disse Vitor, sentado à sua frente.
— Não é.
— Como sabe?
— Minha mãe liga. Não manda quinze mensagens.
— Assessoria?
Maya fez uma expressão.
Vitor estendeu a mão.
— Me dá.
— Não.
— Então olha.
— Não quero.
— Isso só vai fazer você ficar pensando.
Maya suspirou e pegou o aparelho.
Havia mensagens de Clara, sua assessora.
MAYA, NÃO SE ASSUSTA.
Maya já se assustou.
NÃO É NADA GRAVE.
Ela abriu a seguinte.
Um vídeo.
— O que foi? — Vitor perguntou.
Maya deu play.
Era uma gravação de poucos segundos feita naquela manhã, provavelmente por alguém autorizado a produzir conteúdo de bastidores para o perfil oficial.
Ela e Vitor apareciam caminhando pelo corredor.
Ele carregava dois cafés.
Maya pegava um da mão dele.
O vídeo terminava ali.
Sobre a imagem, alguém tinha escrito:
“PRIMEIRO DIA DA 4ª TEMPORADA E ELE JÁ CHEGOU COM O CAFÉ DELA. EU NÃO AGUENTO MAIS.”
Maya fechou os olhos.
Vitor começou a rir.
— Não tem graça.
— Tem um pouco.
— Tem seiscentas mil visualizações.
Ele parou de rir.
— O quê?
Ela virou o celular.
— Em quanto tempo?
— Clara mandou há vinte minutos.
Vitor pegou o próprio telefone do bolso.
— Não entra.
— Eu só vou...
— Vitor.
Tarde demais.
Ele já estava olhando.
Maya conhecia aquela expressão. Primeiro divertimento. Depois surpresa. Depois uma espécie de incredulidade silenciosa diante da capacidade que a internet tinha de transformar absolutamente qualquer coisa em evidência.
— Tem gente discutindo a marca do café — ele disse.
— Eu falei para não entrar.
— Uma pessoa disse que eu só compro esse café quando estou com você.
Maya pegou um pedaço de batata do prato dele.
— Isso é mentira.
— É mesmo.
— Você compra quando está com sua irmã também.
Vitor olhou para ela.
Maya percebeu.
— Não.
Ele começou a rir.
— Não fala isso.
— Eu não falei nada.
— Sua cara falou.
— Minha cara não tem conta.
— Ainda.
Ela tentou não rir.
Perdeu.
Por alguns minutos, foi fácil.
Como sempre tinha sido.
Até Vitor deslizar a tela novamente e o sorriso diminuir.
Maya percebeu.
— O quê?
— Nada.
— Você acabou de fazer a cara.
— Que cara?
— Aquela.
Ele levantou os olhos.
Os dois perceberam a repetição da conversa da manhã.
Vitor entregou o celular.
Era uma montagem.
Imagens antigas dos dois, entrevistas, cenas da série, fotografias de eventos.
A legenda dizia:
“QUATRO ANOS ESPERANDO E ELES AINDA ACHAM QUE ENGANAM ALGUÉM.”
Maya não precisou assistir.
Devolveu.
— Não lê.
— Eu sei.
— Então não lê.
Vitor bloqueou o aparelho.
— Você está certa.
Ela voltou para o prato.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
— Às vezes sinto falta de quando isso era engraçado — Maya disse.
Vitor não precisou perguntar do que ela falava.
— Eu também.
Ela mexeu na comida.
— Na primeira temporada, a gente mandava essas coisas um para o outro.
— Você fez uma pasta.
Maya olhou para ele, ofendida.
— Você prometeu nunca mencionar isso.
— Tinha nome.
— Cala a boca.
— “Delírios coletivos”.
Ela chutou a canela dele por baixo da mesa.
Vitor riu.
Maya também.
Mas havia alguma coisa amarga no meio da lembrança.
Na primeira temporada, era fácil rir porque não havia segredo.
Na segunda, deixou de ser.
Na terceira, aprenderam a sobreviver ao assunto.
Agora estavam entrando na quarta.
E aparentemente o mundo continuava esperando.
***
A leitura coletiva dos próximos episódios começou às cinco.
Era para ser rápida.
Nunca era.
O elenco ocupou uma sala grande, cercando uma mesa coberta por roteiros, garrafas de água, cafés e marca-textos. Maya sentou no lugar de costume.
Vitor puxou a cadeira ao lado dela.
Ninguém comentou.
Ninguém precisava.
Ele sempre sentava ali.
O roteirista principal começou a explicar os arcos.
Maya ouviu com atenção, fazendo pequenas anotações.
A quarta temporada seria mais íntima. Menos separações absurdas. Mais consequências. Catarina e Tomás finalmente teriam espaço para existir como casal sem que algum segredo surgisse a cada dois episódios.
— Graças a Deus — Vitor murmurou.
Maya cobriu o sorriso com a mão.
— Comporte-se.
— Na temporada passada fui atropelado, acusado de fraude e quase preso.
— Você sobreviveu.
— Tomás precisa de terapia.
— Todos nessa série precisam.
O roteirista lançou um olhar para os dois.
Maya abaixou a cabeça para esconder a risada.
Continuaram.
Episódio dois.
Três.
Quatro.
Maya já conhecia parte do material.
Ainda assim, havia páginas novas.
Chegaram ao episódio seis.
O roteirista respirou.
— Aqui começa o arco que vamos guardar da divulgação inicial.
Algumas pessoas na mesa se ajeitaram.
Maya virou a página.
Leu o cabeçalho da cena.
Depois a descrição.
Seu dedo parou no papel.
Ao lado dela, Vitor ficou imóvel.
Tomás levava Catarina até o terraço do edifício que os dois haviam restaurado juntos na primeira temporada.
Maya continuou lendo.
As falas começaram.
Ela sabia antes de chegar ao final.
Mesmo assim, leu.
TOMÁS SE AJOELHA.
O silêncio na sala não era real. Havia gente virando páginas, alguém abrindo uma garrafa de água, o ar-condicionado funcionando.
Mas Maya não ouviu nada disso.
Ao lado dela, Vitor soltou o ar pelo nariz.
— Ah — murmurou.
Maya virou o rosto.
Ele ainda olhava para a página.
Então levantou os olhos.
Foi só um olhar.
Sete anos cabiam em alguns olhares.
E aquele carregava uma lembrança que nenhum dos dois precisava mencionar.
Uma madrugada.
O apartamento dela.
Lençóis bagunçados.
Vitor deitado ao seu lado, sonolento, dizendo alguma coisa idiota sobre os dois se casarem se chegassem solteiros aos quarenta.
Maya rindo.
Perguntando por que teria de esperar tanto.
Uma brincadeira.
Era só uma brincadeira.
Tinha acontecido antes de tudo ficar complicado.
Antes de decidirem parar.
Antes de fingirem que certas lembranças podiam ser guardadas numa caixa e deixadas ali.
— Então — disse o roteirista, animado — finalmente vamos fazer o pedido.
Alguém do elenco comemorou.
Outra pessoa bateu palmas.
Maya sorriu porque era isso que se esperava.
— Os fãs vão enlouquecer — alguém disse.
Essa frase atravessou a mesa.
Os fãs vão enlouquecer.
Maya baixou os olhos para o roteiro.
Vitor mexeu na caneta.
— Maya? — chamou o diretor. — Tudo bem para você?
Ela ergueu o rosto.
— Claro.
— Vitor?
— Perfeito.
Profissionais.
Sempre.
A leitura começou.
Quando chegou à cena do pedido, Maya leu Catarina.
Vitor leu Tomás.
No papel, era bonito.
Muito bonito.
Talvez bonito demais.
— “Eu passei anos achando que precisava construir um lugar para chamar de casa” — Vitor leu, a voz mudando sutilmente quando entrava no personagem. — “E demorei para perceber que nunca foi um lugar.”
Maya sabia qual era a próxima fala.
Olhou para o roteiro.
— “Tomás...”
Vitor continuou.
— “Era você.”
Ninguém naquela sala sabia por que Maya precisou respirar antes de dizer a frase seguinte.
Ninguém sabia que ela já tinha ouvido Vitor falar sobre casamento sem roteiro.
Ninguém sabia que já tinha acordado com ele dormindo ao seu lado.
Ninguém sabia que, dois anos antes, ela tinha escolhido terminar alguma coisa que nem sequer tivera coragem de nomear.
Para todos ali, Maya Marchetti e Vitor Dumont eram atores lendo uma cena.
Era isso que eles faziam.
Era nisso que eram bons.
A leitura terminou pouco depois das sete.
As pessoas começaram a sair.
Maya fechou o roteiro.
Vitor permaneceu sentado.
Ela percebeu que a sala estava quase vazia quando ele falou:
— Quarenta ainda está longe.
Maya congelou.
Virou devagar.
Ele estava olhando para a própria caneta.
— Não faça isso.
— Foi uma piada.
— Eu sei.
Vitor finalmente olhou para ela.
Não havia sorriso.
— Naquela noite também.
Maya segurou o roteiro contra a mesa.
Por um momento, pensou em responder.
Perguntar por que ele estava trazendo aquilo de volta.
Dizer que fazia dois anos.
Dizer que tinham ficado bem.
Que eram amigos.
Que aquela história tinha acabado antes de começar.
Mas a porta abriu.
— Vocês vêm? — perguntou uma assistente. — A produção quer fazer uma foto do elenco antes de todo mundo ir embora.
Maya levantou-se primeiro.
— Estamos indo.
Vitor também se levantou.
Nenhum dos dois mencionou a conversa.
No corredor, caminharam lado a lado.
A equipe já estava reunida diante do cenário.
— Maya! Aqui! — alguém chamou.
Ela tomou seu lugar.
Vitor ficou ao lado dela.
Naturalmente.
Sempre ao lado dela.
O fotógrafo pediu que todos se aproximassem.
Vitor passou o braço pelos ombros de Maya.
Ela colocou a mão nas costas dele.
Um gesto automático.
Familiar.
Seguro.
— Olhando para cá!
Maya sorriu.
O flash disparou.
— Mais uma!
Outro flash.
Vitor inclinou a cabeça e murmurou tão baixo que somente ela ouviu:
— Aposto cinquenta que vão cortar todo mundo e postar só nós dois.
Maya manteve o sorriso para a câmera.
— Cem.
— Fechado.
O flash disparou outra vez.
Na fotografia, pareceriam perfeitamente à vontade.
Dois melhores amigos.
Dois protagonistas felizes por estarem de volta.
Talvez alguém ampliasse a imagem.
Talvez analisassem a posição da mão dele.
Talvez dissessem que Maya estava inclinada demais em sua direção.
Talvez encontrassem amor onde havia apenas amizade.
Ou amizade onde havia alguma coisa que nem Maya sabia mais nomear.
— Corta! Acabou por hoje! — alguém gritou do outro lado do estúdio.
As pessoas começaram a se dispersar.
Vitor retirou o braço dos ombros dela.
Maya sentiu imediatamente a ausência do peso.
E odiou perceber.
A quarta temporada tinha começado naquela manhã.
Pela primeira vez, Maya teve a sensação incômoda de que talvez o roteiro não fosse a parte mais difícil dela.